Seu multímetro digital está medindo corretamente?

Você já parou para pensar se seu multímetro digital está medindo corretamente?

Eu poderia apostar, sem medo de perder a aposta, que, provavelmente, não.

Você põe na escala correta, faz a medida e acredita piamente no resultado que aparece no mostrador, não é mesmo?

Antes de continuar esta conversa que tal perguntar: – o que é medir?

Quando eu dava a aula de Física para Jovens e Adultos (uma das melhores coisas que já fiz na vida) costumava introduzir o tema sobre medidas com uma crônica de Sergio Porto ou Stanislaw Ponte Preta “Medidas no espaço e no tempo” para chamar a atenção dos alunos que medir é comparar uma grandeza com um padrão.

Entretanto, é preciso estar atento a confiabilidade do padrão usado como referência.

E o texto, de Sergio Porto, nos mostra que no final das contas ou, melhor, das medidas, tudo vai depender do padrão que adotamos e de como o utilizamos.

Os multímetros, como qualquer instrumento, saem de fábrica, supostamente, calibrados e, portanto, as medidas deveriam estar “corretas” quando comparadas com o padrão.

E aqui entra o primeiro problema: – o que devemos considerar como “correto”?

Será que os novelos de lã da avó do Stanislaw eram todos iguaizinhos? (você leu a crônica?).

Já pensou no “estrago” que um medidor de pressão arterial ou um termômetro pode fazer se não estiver calibrado?

Deixando o tricô de lado, no caso dos multímetros o “correto” é o que está especificado no manual como “exatidão” (que alguns chamam erradamente de precisão).

Você pode ler mais sobre isso no meu e-book “Não queime o seu multímetro digital”.

No momento basta saber que esta exatidão, para início de conversa, irá depender da qualidade do instrumento, que se traduz, obviamente, em preço.

Supondo que as leituras do seu multímetro novinho correspondem a exatidão especificada no manual pelo fabricante teremos que considerar algumas coisas que ocorrerão com o uso e irão afetar o resultado mostrado.

A primeira coisa, no caso dos multímetros, que muita gente boa não dá bola são as ponteiras. Com o “enrola e desenrola” alguns fios que a compõe vão partindo e a resistência dela(s) deixa de ser “zero” ou bem próxima deste valor.

Ah! Temos também a oxidação tanto dos pinos banana que são encaixados no multímetro como as pontas de prova propriamente. Não esquecendo de observar a própria qualidade das ponteiras. Coisas que muita gente ignora e compra aquelas ponteiras baratinhas do camelô (ou até mesmo em lojas).

Mais uma aposta.

 Você costuma fazer, regularmente, um teste básico de continuidade encostando uma ponteira na outra e vendo a resistência que aparece no mostrador?

Deve ser bem próximo de zero ohm.

Se você respondeu “claro que não, nunca faço isso”, eu ganhei a aposta.

E o desgaste dos contatos internos da chave seletora de funções e escala depois “infinitos” gira-gira ao longo da vida de trabalho?

Já pensou nele? Pois, deveria.

Esse é um ponto importante é que nos remete diretamente a qualidade dos instrumentos que se traduz, mais uma vez, em preço.

A solução

Depois que eu enchi sua cabeça de minhocas (além dos piolhos) você deve estar a se perguntar, como no poema de Drummond, “e agora José” o que eu faço?

O correto seria mandar para uma empresa especializada em calibração que lhe daria, ou melhor, venderia um certificado.

Isso é importante e, eu diria, obrigatório para empresas e laboratórios.

No nosso caso, de meros reparadores ou hobistas, não precisamos (nem temos dinheiro) para tanto.

As principais medidas, no caso de reparação de aparelhos eletrônicos ou pequenos projetos de hobistas são as tensões contínuas de baixo valor bem como as resistências, também de baixo valor ôhmico.

Construindo seu padrão de medida de tensões

A Analog Devices nos oferece uma solução relativamente barata com o CI AD584 que fornece quatro tensões DC, a saber, 2,5V, 5,0V, 7,5V e 10V com uma acurácia entre 0,30 e 0,10% o que é bastante razoável para uma leitura de tensão dentro desta faixa de valores no caso da reparação de um equipamento ou para um hobista.

Para simplificar mais ainda podemos encontrar no mercado chinês alguns módulos prontos com este CI por valores que cabem no bolso dos brasileiros.

Encontrei um módulo no Aliexpress que vem “de brinde” quatro resistores de precisão para verificarmos também as escalas resistivas, a saber, 100Ω, 1kΩ, 10kΩ e 100lsΩ.

Módulo AD584 para calibração de multpimetros

Não é “assim uma Brastemp”, como dizia o comercial, mas é um bom começo. Quem não tem cão, caça como gato!

Aferindo meus multímetros

Ganhei um módulo destes da Aliexpress resolvi avaliá-lo “aferindo” os meus multímetros.

Na tabela a seguir podemos ver os resultados que obtive para todos os meus multímetros digitais.

Tabela com a mediição de vários multíemtros

Na primeira coluna temos os valores indicados no módulo de teste.

Cada módulo virá com os valores medidos pelo fabricante e que serão tomados como referência.

É importante observar que utilizei a mesma ponteira para a verificação de todos os multímetros, uma vez que ponteiras diferentes poderiam ter resistências diferentes o que comprometeria a comparação.

Observe que o Fluke 107 foi o que apresentou resultados muito próximos das referências.

Embora ele seja um modelo barato, não deixa de ser Fluke.

A seguir, na tabela, temos o SCOPE DV-638 que foi meu primeiro digital comprado na década de 70 e que nem uso mais. Guardo-o apenas como relíquia até porque “o primeiro multímetro digital a gente nunca esquece”!

Na figura abaixo temos como curiosidade a montagem interna desta raridade.

Multimertor SCOPE DV 638

Vejam quantos CI’s foram utilizados. Hoje cabe tudo num chip só.

Outras opções

Procurando na Internet você irá encontrar outros módulos como o da figura abaixo, entretanto a maioria deles só permite verificar as tensões DC, não incluindo a verificação de resistência.

Outra quetão que é preciso estar atento é que o AD584 é fabicrado com vários sufixos e deles depende a acurácia do valor de tensão fornecido.

CLICANDO AQUI você terá uma tabela com todos eles.

Espero que o artigo o ajude a refletir não apenas na hora de comprar um multímetro, mas também com relação aos cuidados que devemos adotar na hora de fazer as medidas.

E mais ainda, no medidor de pressão arterial, no termômetro e tudo que usamos para medir. A hora do almoço com os novelos de lã deixa para sua avó!

Aguardo os comentários.

Paulo Brites

Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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6 Comentários

  1. Paulo bom dia,daria para montar um comparador de tensao desse tipo,com um ci indicado ou com algum modulo feito em bancada para teste e aferiçoes para multimetros com o ci ad 584 acharia aqui .

    • Paulo Brites

      A questâo Luiz é que você precisaria ter um instrumentos top para poder usar como referência. Além disso não parece facil achar este CI.
      Então acho que a unica solução é comprar o módulo.

    • Rafael

      Vendo pela tabela , até que o shing king não fez feio.

      • Paulo Brites

        Pois é, e gente falando mal dos chineses. O problema maior é a durabilidade. Com muito a chave seletora começa a ficar ruim. Aí compra outro.

  2. Paulo Santana

    Vou procurar ver onde o meu minippa ET 2042E encaixa.

    • Paulo Brites

      Este é um bom multímetro, acho que vai dar tudo certo. A questão também é com o manuseio constante vão surgindo os desgastes.

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