Reconstruindo uma fonte para Slotcar

Reconstruindo uma fonte para Slotcar

Talvez eu deva começar este post esclarecendo aos “não iniciados” que slotcar é a “versão adulta” do conhecido brinquedo chamado de autorama comercializado em 1963 pela Estrela.Autorama-min

Feita esta observação preliminar vamos ao assunto do título – reconstruindo uma fonte para slotcar.

Novamente vale informar aos neófitos no assunto, que as “crianças” que brincam com slotcar levam o hobby a sério e dentre os acessórios que precisam, além dos “carrinhos” e do acelerador para controlar “as máquinas” nas pistas, inclui-se uma fonte de tensão de saída variável e capaz de suportar corrente de 10A para cima.

Com correntes desta ordem manuseadas por pessoas, geralmente, leigas em eletricidade o mais comum é que volta e meia (sem trocadilho) estas fontes sejam trucidadas pelos seus usuários e algumas venham para na minha mão (ainda bem) para que sejam trazidas de volta ao mundo dos aficionados em corridas de slotcar.

Recentemente recebi uma destas fontes para reparo que pelo modelo (1210D) e o tamanho do transformador parecia indicar fornecer 12V a 10A.

Fonte para slot car

Fonte para slot car

Antes de ligar na tomada, manda a boa regra, abrir a caixa preta (neste caso literalmente) e ver como andam as coisas por dentro.

Ops! Ainda bem que não tenho gatos em casa, embora os adore, porque se os tivesse e um deles cheirasse a dita fonte iria querer jogar terra em cima.

Não acreditei que “aquilo” pudesse ter saído de alguma fabrica daquele jeito.

Prefiro ficar com a hipótese de que a pobre coitada tivesse passado pelas mãos de algum terrorista especializado em destruição de fontes. Veja estas duas fotos da fig.1 e tire suas conclusões.

Fig. 1 Montagem encontrada dentro da fonte

Fig. 1 Montagem encontrada dentro da fonte

Considerando este quadro não quis nem saber qual era o defeito. Arranquei tudo lá de dentro para começar a reconstrução.

O primeiro passo foi testar o transformador que tinha vários secundários (não sei porque) sendo que um deles alimentava uma ponte retificadora bem robusta entregando–lhe cerca de 18V AC o qual respondeu bem a uma carga que “puxava” 10A.

Isto já era um alívio, pois se tratava do componente mais caro da fonte a qual por sinal tinha um projeto bem “econômico” no que diz respeito à variação da tensão de saída como vemos no circuito da fig.2 e tudo montado no melhor estilo “Homem Aranha” (fig.1) sem nenhuma PCI para prender os componentes.

Fig.2 - Circuito LM317 com 2N3055

Fig.2 – Circuito LM317 com 2N3055

Em linhas gerais tratava-se apenas de regulador LM317 como driver de um 2N3055, este fixado a um dissipador. Constatado que tanto o LM317 como o 2N305 ainda estavam “vivos”, eu já podia concluir que o reparo na verdade seria fazer a reconstrução da fonte.

O problema é que o transformador ocupava praticamente todo o volume da caixa onde estava montada a fonte o que dificultava fazer uma montagem razoavelmente “decente” e este era maior desafio.

Além disso, havia também um display PM438 servindo como voltímetro e amperímetro e este sim estava queimado. Nada de mais, consegue-se no Mercado Livre por alguns 30 reais (incluindo o frete que é mais caro que o produto).

Na reconstrução resolvi que ele seria substituído pelo YB27 VA e assim, eliminaria a chave do painel que permitia escolher qual a leitura a fazer: tensão ou corrente o que convenhamos não é nada prático.

Sobre isto falarei mais adiante.

O circuito de retificação e filtragem

A retificação como eu mencionei já era feita por uma ponte fixada à base da caixa como vemos na foto da fig.3.

Fig.3 - Ponte refiticadora

Fig.3 – Ponte refiticadora

Para completar esta etapa tínhamos dois eletrolíticos de 4700uF/63V ligados em paralelo o que dá 10000uF. Nada mal.

Estes eletrolíticos estavam montados como mostra a fig.1 e “jogados” dentro da caixa metálica sem nenhum isolamento. Sem comentários.

Troquei-os por dois de 4700uF/50V que eram menores e mais fáceis de acomodar montando-os em uma plaquinha de circuito impresso padronizada onde coloquei também o LM317. Fig.4.

Fig.4 - Capacitores de filtro

Fig.4 – Capacitores de filtro

A interligação destes capacitores foi feita com uma barra sindal para uma substituição futura em caso de falha destes componentes. Fig.5.

Fig. 5 - Barra sindal

Fig. 5 – Barra sindal

Aliás, estes “macetes” é que diferenciam um técnico com experiência em reparação de um mero projetista, principalmente se ele nutre algum amor por sua genitora!

Lembro-me do tempo em que reparava televisores de tubo e de um deles em que para se trocar o transistor de saída horizontal era preciso retirar o flyback para ter acesso ao parafuso que prendia o transistor ao dissipador. Parafuso auto atarraxante com a cabeça virada para o flyback. Quantas vezes elogia a mãe do projetista, uma boa senhora!

Depois do desabafo, voltemos a nossa reconstrução.

Tudo arrumado no lugar está na hora de ligar a geringonça e torcer para que não surja nenhuma fumacinha, com o auxilio da lâmpada série é claro até porque o fabricante não sabe que inventaram um dispositivo chamado fusível e, portanto a dita cuja não possuía nenhum.

Bingo! Até aqui tudo bem, a saída estava variando de quase zero até 19V sem carga, por enquanto.

Precisava providenciar uma refrigeração forçada para o 2N3055.

Para tal, o fabricante tinha colocado, pelo menos, uma ventoinha do lado de fora do gabinete funcionando como exaustor, para puxar para fora o calor produzido pelo 2N3055, mas era preciso providenciar a sua alimentação.

A dita cuja não tinha uma grade de proteção, talvez com a intenção de servir como decepadora dos dedos de um usuário distraído.

É claro eu providencie uma como se vê na fig.6.

Fig. 6 - Ventoinha ligada como exaustor

Fig. 6 – Ventoinha ligada como exaustor

Fonte para a ventoinha e o voltímetro/amperímetro.

No projeto original tinha uma “fonte” de 12VDC para ventoinha e outra de 9V para o PM-438.

Como o trafo tinha secundários sobrando (não sei porquê) eu aproveitei um deles, fiz uma retificação de meia onda (suficiente para a empreitada) e coloquei um capacitor de filtro de 1000uF/25V ao qual liguei um 7812.

Com estes 12VDC eu alimentei a ventoinha e o voltímetro/amperímetro que será feito com o YB-27VA

Agora sim, vamos ligar a dita cuja e “puxar” alguns ampères para ver se ela aguenta o tranco.

Para tal usei como carga quatro resistores de 8ohms/50 watts ligados em paralelo, fornecendo assim, 2ohms de resistência total.

Até aqui estamos indo bem, nenhuma fumacinha.

Vamos então, partir para instalação do voltímetro/amperímetro com o YB-27VA, mas isto vai ficar para o próximo post porque temos muitas historinhas interessantes para contar sobre ele.

Não perca, vai ser emocionante e você descobrir coisas que nem imaginava, como eu também descobri e vou contar os segredos para você.

Aguardo seus comentários

 

Reconstruindo uma fonte para Slotcar
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Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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11 Comentários

  1. Cláudio amoy lessa

    Parabéns Professor! Belo trabalho de dedicação e compartilhamento de conhecimento. Precisamos de mais Paulos Brite!

    • Paulo Brites

      Muito obrigado pelo seu comentário Cláudio Para mim a participação dos leitores é fundamental.

  2. Felipe

    Muito bom ! Ansioso pela continuação.

  3. carlos borges

    grande professor a cada dia fico mais fã dos seus artigos , tenho aprendido muito. sou um grande admirador seu.

    • Paulo Brites

      Muito obrigado Carlos, ficou muito feliz com isso.

  4. Anderson

    O pior é que quem fez a lambança da fonte, ainda deve ter se orgulhado de tal façanha. Não deveria dar outro assunto nas rodas de bate papo. 🙂

  5. Jaime Moraes

    MAis uma história imperdível !

  6. LisandroCB

    Bem legal esse artigo. Quando eu era garoto, meu sonho era ganhar um Autorama, mas nunca consegui… risos

    • Paulo Brites

      Ainda está em tempo de ser criança

    • Anderson

      A Estrela está relançando um monte de brinquedos das décadas de 80 e 90!
      Já comprei o Falcon.

      • Paulo Brites

        É a era da nostalgia.

Fico muito contente quando alguém coloca um comentário, é sinal que leu