Lâmpada Série no século XXI

Lâmpada Série no século XXI

Não é de hoje que eu escrevo sobre este assunto e estou convencido que, de vez em quando, é preciso reativá-lo na cabeça dos técnicos; por isso, mesmo correndo o risco de ser chamado de velho ranzinza que repete sempre a mesma ladainha, volto a tratar dele no meu blog.

Quero aproveitar também para dar uma dica e resolver o problema surgido com a descontinuidade de fabricação das lâmpadas incandescentes que constituem o “coração” da nossa imprescindível lâmpada série na bancada.

Como era antigamente?

A turma da velha guarda foi treinada a usar lâmpada série, e os técnicos de old times sempre tinham em suas bancadas um soquete com uma lâmpada de 100 ou 150 W para ligar amplificadores e televisores “queimadores” de fusíveis que chegavam para conserto.

De repente, não sei por que, parece que à medida que os aparelhos foram ficando mais modernos, a “gloriosa” lâmpada série (como diria certo apresentador de TV) parece que também foi ficando démodé e alguns técnicos começaram a alegar: – não uso porque não funciona nos televisores com fonte chaveada!

E de onde saiu este mito?

Certamente da falta de conhecimento teórico, isto é, fazer as coisas pela prática (leia-se chutômetro), mas sem saber por que está fazendo.

Talvez aqui caiba uma pergunta: – você sabe como funciona uma lâmpada série?

Em principio, poderíamos dizer que a lâmpada série é uma espécie de fusível que não queima.

Como assim, fusível que não queima! Que história é essa?

Todo mundo sabe que o fusível (não confundir com fuzil) é aquele “carinha” que fica logo na entrada do circuito de modo que toda a corrente do aparelho tem que passar por ele, ou seja, ele fica em série com o circuito, quer seja no aparelho ou na casa da gente (aí costuma ser chamado de disjuntor).

Ele é dimensionado para suportar uma determinada corrente e se esta corrente for maior que o previsto pelo projetista ele se romperá por aquecimento (ainda bem).

Vale a pena lembrar aos novatos (só aos novatos mesmo?) que nunca, jamais, em tempo algum se deve trocar um fusível “teimoso” que “insiste” em queimar sempre por outro “mais forte” (a menos que você esteja fazendo treinamento para incendiário!).

Considerando que o fusível que “queimou” estava com o seu valor em ampères igual ao especificado pelo fabricante significa que os “ampères” (corrente) que passaram por ele estavam acima do normal, ou seja, há uma sobrecarga ou curto circuito no aparelho.

E se ligarmos o aparelho através de uma lâmpada em série?

Bem, lâmpadas foram feitas para acender quando ligadas na rede e acionamos o interruptor que tem o papel de fechar o circuito entre a fase da rede elétrica e a lâmpada.

Lampad com interruptor

Agora vamos “substituir” o interruptor por uma tomada onde será ligado o aparelho sob suspeita.

Se o aparelho estiver em curto irá fazer o papel do interruptor e a lâmpada acenderá com seu brilho normal. Até aí tudo bem, o fusível não queimou.

Antes de prosseguir que tal pensarmos um pouquinho

Qual a diferença entre curto circuito e sobre corrente (over current) ?

Bem, um curto circuito é circuito curto (sem trocadilhos), ou seja, um circuito de resistência zero (aquilo que você tem no bolso no final do mês) o que faz a corrente tender a um valor muitíssimo alto (as contas a pagar).

Uma sobre corrente (over current) ocorre quando a resistência do circuito fica abaixo do normal, mas não é zero e, portanto a corrente ficará mais alta que o especificado, mas, não necessariamente, se tornará muitíssimo alta de repente.

É comum ouvirmos nos noticiários – o incêndio pode ter sido provocado por um curto circuito que começou no aparelho de ar condicionado e blá, blá, blá.  E aí cabe uma perguntinha: e o disjuntor não desarmou imediatamente por quê?

Para ficar mais fácil de entender, o curto circuito é um infarto fulminante, enquanto a sobre corrente provocada por uma sobre carga é aquela doença “invisível” que mata devagar.

E como a lâmpada série pode ajudar no reparo de aparelhos eletrônicos?

Se ao ligarmos o aparelho através da lâmpada série e ela acender com seu brilho normal significa que há um curto e obviamente você deverá procurá-lo antes de ligar o aparelho diretamente à rede (a menos que você seja acionista da fábrica de fusíveis).

Há casos, porém que a lâmpada acende com brilho reduzido inicialmente e este vai aumentando gradualmente após algum tempo. Uma das possibilidades é que se tenha uma sobre corrente provocada por algum componente que não está em curto, mas à medida que a corrente passa por ele sua resistência vai diminuindo (tendendo a entrar em curto) o que vai fazer a corrente aumentar permitindo que a lâmpada série passe a  acender cada vez com mais brilho.

Mas por quer dizem que a lâmpada série não funciona com fontes chaveadas?

Será que é intriga da oposição? Eu afirmo que não, e sim falta de conhecimento teórico mesmo.

Vejamos o seguinte, quando você liga um aparelho através de uma lâmpada série e ele não está em curto ou apresentando uma sobre corrente significa que sua resistência não é nula nem muito baixa, ou seja, que ele está consumindo a potência para o qual foi projetado.

Por exemplo, um televisor cujo consumo é de 100 W se estiver funcionando corretamente irá consumir no máximo 100 W (é óbvio).

etiqueta televisor

 

 

 

 

 

Um circuito série se caracteriza por duas regrinhas básicas:

1)   A corrente é a mesma em todos os elementos do circuito;

2)  A soma das tensões sobre cada elemento (lâmpada, televisor, ventilador, etc.) do circuito é igual à tensão aplicada a ele.

Se os dois elementos consumirem a mesma potência significa que têm a mesma resistência e se forem ligados em série cada um ficará com a metade da tensão (porque neste caso são dois).

Assim, se ligarmos um televisor (funcionando) que consome 100 W em série com uma lâmpada também de 100 W a uma rede de 120 V teremos 60 V sobre cada um (metade de 120).

 

Lampada série

E é aí que está encrenca que faz com que a lâmpada série “não funcione” com fontes chaveadas.

Estas fontes precisam de uma tensão mínima para começar a funcionar.

Nos aparelhos modernos esta tensão mínima costuma ser 90 ou 100 V, logo com 60 V, como no exemplo acima, a fonte não vai partir.

Entendeu agora porque a lâmpada série não funcionou?

E como resolver isso?

Muito simples.

A regra de ouro da lâmpada série

Basta usarmos uma lâmpada série com potência cerca três vezes a potência do aparelho para conseguirmos que cerca de 80% da tensão rede alimente o aparelho o que deve ser suficiente para a fonte partir (80% de 127 V nos dá 101 V).

Assim, no nosso exemplo a potência da lâmpada deveria ser de 300 W o que fará com que apareça mais tensão sobre a carga (televisor) e menos tensão na lâmpada que praticamente não deverá acender se o aparelho estiver funcionando corretamente.

Uma dúvida que quase todo mundo tem

No parágrafo acima foi dito que se o televisor consumir 100 W e for ligado em série com uma lâmpada de 300 W teremos “mais tensão no televisor e menos lâmpada”. Você entendeu bem isso?

Quanto maior a potência da lâmpada menor será a sua resistência e como a lâmpada está em série com o aparelho em teste a corrente que circulará na lâmpada será a mesma que circulará no aparelho. Como consequência quanto menor a resistência menor a tensão desenvolvida.

É por isso que a potência da lâmpada, no caso de fontes chaveadas, tem que ser três vezes maior que a potência do aparelho.

Construindo uma lâmpada série multi potências

Para não ficar tirando e colocando lâmpadas para tocar de potência (queimando a mão e xingando a mãe de quem inventou isso) basta montar um circuito simples com cinco lâmpadas apenas com as seguintes potências (uma sugestão): 25 W, 60 W, 100 W e duas de 150 W.

Com o circuito apresentado abaixo você tem como conseguir 21 potências diferentes entre 25 e 485 W dependendo da combinação de chaves que você fechar e abrir.

Lâmpada série

Por exemplo, com S2 e S3 fechadas e a outras abertas você terá uma potência equivalente a 160 W, ou seja, 60 + 100 porque potências em paralelo se somam (em série não).

Escreva embaixo de cada chave a potência da lâmpada que ela está acionando.

E se não conseguir comprar lâmpadas incandescentes?

As lâmpadas incandescentes estão descontinuadas, ou seja, não são mais fabricadas, portanto corra para comprar onde ainda tem estoque antigo e faça as suas reservas.

Lmppada OSRAMOutra opção é utilizar lâmpadas hológenas com soquete E27 que funcionam de modo similar às incandescentes, pois ambas têm filamento resistivo e isso é que importa no caso da lâmpada série.

Um cuidado especial é quanto à potência destas lâmpadas. Encontrei dois tipos da marca OSRAM com indicações 42 W = 60 W e 70 W = 100 W.

Considere os valores mais baixo de potência (42 e 70 W) e não os valores mais altos. O que o fabricante está querendo dizer é que uma lâmpada halógena de 42 W, por exemplo, equivale em termos de iluminação a uma incandescente de 60 W.

A oferta de potências destas lâmpadas não é tão grande como a das incandescentes, mas é possível, usando um número maior de lâmpadas, construir um conjunto similar ao mostrado no esquema.

Outra questão que você deve ficar atento é quanto a tensão das lâmpadas que deve ser compatível com a da rede elétrica da sua cidade (127 ou 220V).

Agora é com você. Construa sua lâmpada série e pare de queimar fusíveis, transistores e etc. ou então, confie no seu “anjo da guarda” e se ele estiver ocupado e lhe deixar na mão vá se queixar ao bispo.

Até sempre

Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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  1. Bom dia amigo,

    Quero construir uma lâmpada serie para ligar carregadores de bateria 12v 30A, qual lâmpada é a certa em potencia? prefiro a halógena porque a incandescente num acha mais no mercado. Agradeço por sua resposta, e parabéns pelo seus artigos.

    • Olá Paulo
      Eu não entendi bem o que você pretende. Seria fazer um carregador com um lâmpada em série com um diodo? Se for isso, você tem 12 x30 = 360W, mas como o diodo só vai conduzir a cada meio ciclo a corrente de carga também vai cair Assim teríamos (numa conta rápida) apenas 180W Você pode usar um conjunto de lâmpadas em paralelo para obter os 180W Por exemplo, 3 lâmpadas de 60W em paralelo e conjunto em série com a carga. Espero que seja isto que você quer.

  2. Excelente esse esse material obrigado por partilhar o vosso conhecimento infelizmente o Brasil e carente de pessoas com boas motivações assim como voce.

    • Muitíssimo obrigado pelo seu apoio, João.
      Tenho dedicado meu tempo a escrever e passar todo o conhecimento que adquiri ao longo de toda a minha vida adiante, pois acho que isto é o mínimo que posso fazer como ser humano. Ajude-me a divulgar o trabalho e também estará contribuindo com sua missão neste planeta.
      Abraços e até sempre

  3. Realmente a lâmpada série é o “amor a primeira vista” do técnico iniciante depois que ele descobre a eficácia de seu uso.
    Durante as aulas do Prof. Brites na Antenna pude ver o quão importante era ter uma lâmpada série, e nos boletins técnicos sempre que dava um espacinho tava lá ela na reparação de algum equipamento, ou virando assunto do tipo “flashback”
    Desde a época dos monitores CRT, placa fonte das impressoras LX300, fontes de PC, pude ver que era realmente importante tê-la para evitar a queima de alguns componentes. Ainda tenho a minha velha lâmpada série guardada, e ainda uso quando pego uma fonte de alimentação com um defeito cabeludo.
    Sempre me lembro de um ditado do Prof. Brites, onde ele menciona que “o bonde virou metrô”. No caso da lâmpada série, ela ainda é a boa e velha lâmpada série da época de ouro da reparação.
    Quem não tem, não sabe o que tá perdendo… (ou até sabe, perdendo dinheiro comprando fusíveis, transistores, etc…)

    Grande abraço mestre… Seu site é realmente muito bom, é um túnel no tempo.

    • Muito obrigado Daniel pelo seu depoimento.
      Eu é que entre no túnel do tempo, nem me lembrava que “o bonde virou metrô”.
      Bom reviver os velhos temposm, mas manter os olhos abertos para o futuro.
      Abraços
      Paulo Brites

  4. parabens pelo seu site . bem explicativo e facil de entender . continue assim . voce conseguiu mais um fã . um abraço .

    • Muito obrigado Francisco

      Compartilhe com seus amigos. Nós só temos a ganhar quando passamos adiante aquilo que aprendemos.

      Abraços

      Até sempre

  5. caro amigo, gostei bastante do seu artigo, que por sinal o melhor que ja vi ate agora, tenho uma duvida, na minha cidade a rede é de 220 volts mais tenho bastante equipamentos que são apenas 110 volts, posso usar esses equipamentos(110v) em lampadas serie ligadas a tensão de 220 volts?

    • Obrigado Odail,
      pois é, às vezes, a gente está mais inspirado.
      Quanto a sua dúvida, se os aparelhos são para 110V e sua rede elétrica 220V você deverá utilizar um transformador 220/110.
      Se os aparelhos também forem 220V você deverá usar lâmpadas 220V.
      Espero ter esclarecido sua dúvida, se não entre em contato.
      Abraços

  6. Nossa que bom poder saber que está bem e escrevendo artigos, a uns 5 anos fiz alguns cursos de manutenção de monitores com o sr.Paulo e fez uma diferença enorme no meu conhecimento consegui resolver com mais facilidades os defeitos e aumentou a qualidade do serviço técnico más nunca mais tive contato e sinto falta dos seus cursos técnicos…” existem outros” dando curso por ai que dá até vergonha dizer cobram um absurdo prometendo grandes resultados e quando a gente faz paga caro e sai frustrado ,tenho saudades dos curso aprofundados e práticos que o sr.Paulo ministra…
    agradeço pela sua contribuição em minha vida!
    Carlos Uraí pr

    • Pois é, Carlos eu sou como um cometa desapareço mais volto,
      Agora estou pretendendo ficar um bom tempo “visível aqui na Terra” rsrsrsrs
      Fico muito feliz em ter lhe ajudado.
      Suas palavras são uma grande motivação para continuar na estrada.
      Um grande abraço e como diziam antigamente “Fé em Deus e pé na taboa” continue horando a profissão.

  7. A meu ver usar lâmpada em série para tenta solucionar um defeito e uma afronta a quem realmente estuda, ou os multímetros e os osciloscópio são apenas peças de decoração Natalina.

    • Caro Mith

      A Lâmpada Série não é uma afronta a ninguém, assim como o air bag não é uma afronta ao bom motorista.
      Se o aparelho tem algum curto “escondido” e cada vez que é ligado diretamente à rede queima o fusível ou outros componentes mais caros vamos ficar substituindo-os indefinidamente?
      De que adiantarão os multímetros e os osciloscópios se não podemos fazer medições com o aparelho ligado?
      Acho que o senhor não entendeu o objetivo da lâmpada série.
      A lâmpada série é uma grande aliada do técnico que sabe usá-la.

  8. Estive presente no curso do Prof. Fernando e foi com imenso prazer que reencontrei a sua pessoa (o conheci pela primeira vez, há muitos anos, em sua antiga oficina na Tijuca), uma pessoa que admiro pelos seus conhecimentos e sua didática, que transformam os assuntos mais complexos em assuntos facilmente assimiláveis. Gostei muito de sua aula sobre o tema e achei a ideia genial, do Prof. Fernando, em ter a sua grande pessoa, que considero o “papa” dos profissionais em Eletrônica presente também em suas aulas. Que Deus lhe dê muitos anos de vida para que continue contribuindo para o nosso constante aperfeiçoamento e fique certo que este desejo não é só meu, mas de uma grande legião de admiradores…

    • Valeu Santos.
      Muito obrigado pelo seu comentário.
      Minha filosofia de vida é “compartilhar conhecimento é uma maneira de consolidá-lo”.
      Sem informação não há cidadania.
      Abraços

        • Com certeza teremos.

          Se não quiser perde-las assine o blog e receberá as novidades no seu e-mail
          Abraços

          • Olá, Prof. Paulo Brites, fiquei muito feliz em enviar este comentário para o sr. que conheci através dos boletins técnicos distribuídos pela ANTENNA EDIÇÕES TÉCNICAS do saudoso Gilberto Affonso Penna. Pouco tempo antes dele nos deixar, ainda procurei os seus boletins, porém não os encontrava, o que me deixava triste e sentia-me um tanto desamparado pela falta de informações técnicas. Ainda tenho alguns comigo, que leio porque gosto do modo como o senhor ensina: com uma linguagem supimpa (sem querer ofender: linguagem simples e fácil de entender). Continue nesta caminhada, professor, que o senhor vai longe, muito longe,ok? Até a próxima, se Deus assim o permitir!

          • Olá João
            Também fico feliz com o seu comentário. Quero ver o site cheio de gente dando o seu depoimento, seja ela positivo ou de critica.
            Pois é, infelizmente tive que parar com os boletins no número 12. Não foi por superstição, mas do 13 em diante não saiu mais.
            Há muito tempo li uma frase de alguém cujo nome não lembro que dizia mais ou menos assim”um escritor não tem nada de novo a dizer, apenas uma maneira diferente de dizer”.
            Quando escrevo procuro me colocar na posição do leitor e tento atingir não só o seu cérebro, mas também o seu espirito.
            Esteja certo que vou continuar na caminhada.
            Abraços e até sempre
            Paulo Brites