Voltímetros e amperímetros digitais de painel – Cuidado ao comprá-los

Quem é meu seguidor há algum tempo – antigamente se dizia fã – sabe que eu sou “tarado” por instrumentos de medida e não é de hoje.

A lista de artigos que já escrevi aqui no blog sobre voltímetros e amperímetros digitais de painel é longa.

Comecei com o PM-438 que é apenas um voltímetro com painel LCD.

Mais adiante apareceu o YB-27 VA, este sim, um voltímetro e amperímetro.

A bem da verdade, nunca é de mais lembrar aos neófitos em Eletrônica e, quem sabe, talvez a alguns da “velha-guarda”, que todos os digitais – eu disse TODOS – são apenas voltímetros, melhor dizendo mili voltímetros, que “medem” corrente de maneira indireta.

Se a afirmação acima lhe causou alguns espanto sugiro a leitura, com urgência, de dois artigos aqui do blog:

Feito este pequeno desvio de rota do tema-título deste post passo a tratar do voltímetro/amperímetro denominado por DNS-VC288 que é a “bola da vez” nos sites de vendas chineses e do Mercado Livre e esclarecer por que recomendo para ter cuidado ao comprá-los.

Aliás, pensando bem, cada vez mais precisamos ter cuidado não apenas com o que compramos. mas também com o que “ouvimos dizer” e passamos adiante sem uma prévia e cuidadosa verificação.

Mas isso é tema que foi abordado no meu outro blog – abobrinhasfilosoficas.com.br.

Quem vê cara, não vê coração

Este é um dito popular que tem muitas aplicações no dia a dia e, no caso particular do DSN-VC288, cai como uma luva ou, já que estamos em tempos de pandemia, melhor seria dizer que cai como uma máscara a qual, diga-se de passagem, não deveria cair, do nariz e da boca, para o queixo.

Voltando ao DSN-VC288, tudo começou (para mim) quando estava a finalizar o último artigo da série sobre a construção de uma fonte de bancada a partir de uma ATX “abandonada” que publiquei na edição de fevereiro de 2022 da Revista Antenna.

Já havia usado dois deles antes, um para a fonte de 3,3V e outro para a de 5V, com sucesso diga-se de passagem.

Entretanto, ao instalar mais um DNS-VC288 na fonte variável de 1,25V a 9V, observei que as medidas de tensão e corrente que ele apresentava divergiam um pouco quando comparadas com a medidas realizadas com o Fluke 107.

A coisa ia piorando à medida que a corrente aumentava.

É mais que óbvio que eu não sou tão ingênuo a ponto de imaginar que instumenticos destes, que se compram por merrecas, poderiam competir com “instrumentos de verdade” entretanto, um “mínimo de responsabilidade” é preciso ter nos resultados apresentados.

Pior que não medir nada é medir errado, tenha isso sempre como referência.

Num primeiro momento julguei que seria fácil resolver atuando nos micro trimpots de ajuste, um para tensão e outro para corrente, que existem na PCI do instrumento.

Foi quando descobri que, naquele instrumento especificamente, os tais trimpots pareciam ter uma função quase decorativa pois, não produziam nenhum efeito prático de ajuste.

Estaria aquela unidade defeituosa, é a primeira coisa que nos vem à mente.

Isto seria fácil de comprovar pois, como já disse, tinha mais duas “iguais” no painel.

Removi os dos conectores do display que faz a leitura de 3,3V e coloquei nele os conectores do display suspeito.

Bingo! Funcionou!

Isto parecia provar que aquele display especificamente estaria defeituoso.

Não me sentiria realizado se não tentasse descobrir qual seria o defeito, se é que existia um.

Coloquei os dois displays lado a lado como vemos na fig.1 a fim de fazer alguma medidas ôhmicas comparativas, antes porém pedi a ajuda de Sherlock Holmes para desvendar o crime e, o mais importante, encontrar o criminoso.

Fig.1 – DNS-VC288 – Iguais, mas diferentes

Holmes, prontamente me observou: – Elementar meu caro Brites, estes instrumentos não são “terrivelmente” iguais!

Lembre-se, disse-me Holmes, “as pequenas coisas são infinitamente mais importante”, observe que os dois conectores marcados dentro do quadrado azul, estão em posição diferente e isto precisa ser melhor investigado.

Holmes partiu para investigações mais serias e deixou-me a pensar com meus botões, ou melhor, com meus DSN-VC288.

Ops! Peguei mais “dois gatos” (no bom sentido):

  • O da esquerda, que não funcionou corretamente, tinha a inscrição DSN-VC288, enquanto o da direita, que funcionou, estava identificado como M3430. Estranho, não acham?
  • Os dois CI’s dentro do retângulo vermelho não são iguais.

Lembrei-me do terceiro mantra de Sherlock Holmes – “Quando você eliminar o impossível, o que restar, mesmo que improvável, deve ser a verdade”.

Valei-me São Google!

Se eu não tivesse alma de gato e não fosse curioso como eles, daria o assunto por encerrado. Bastaria comprar mais um instrumento do tipo que funcionou e jogaria o outro no lixo, dando uma modesta contribuição para poluir algum rio por aí com suas consequências previsíveis.

Comprar mais uns instrumentos dos “bons” até comprei porque iria precisar, mas socorri-me de São Google a ver se mais alguém tinha passado pela mesma situação.

Se houver alguma chance de conseguir uma razoável resposta para o nosso questionamento ou dúvida esta chance poderá ser maior se soubemos fazer a pergunta da melhor maneira possível.

Comecei perguntando assim:

  • Why my Voltmeter/Ammeter is not reading amps correctly

Estranhou que eu tenha colocado a pergunta em inglês?

Em geral, faço isso porque a chance de cair em fóruns mais interessantes aumenta bastante.

No caso específico destes “instrumentos”, pelo que li num fórum, findei por chegar à conclusão que, provavelmente, na versão que não funcionou, foi usado micro controlador rejeitado pelo controle qualidade do fabricante.

Afinal, parafraseando a Lei de Lavoisier – no capitalismo nada se perde, tudo se vende (mesmo com defeito).

O “novo” voltímetro/amperímetro já foi instalado na fonte, funcionou como deveria e o “caso está encerrado”.

Ah! O display fake, não foi jogado no lixo, nem nunca será.

Na pior das hipóteses, um sucateiro compulsivo como eu vai aproveitar algumas coisinhas dele. Numa das minhas junk box ocupará pouco espaço e ficará mais bem guardado que no fundo de um rio.

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Paulo Brites

Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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2 Comentários

  1. João Alexandre da Silveira

    Muito legal seu trabalho de pesquisa sobre esses voltímetros chineses baratinhos. Eu mesmo tenho meia dúzia deles de diferentes fabricantes. Agora vou ficar de olho. Grande abraço Brites!

    • Paulo Brites

      E laiá, finalmente o Alex apareceu!
      Pois é, e vem mais por ai. Acho que vou me especializar em falcatruas chinesa em vez de das “verdades chinesas” da canção do Emílio Santiago!
      Dando um spoiler, no artigo da Antenna de março vou falar sobre o HFE nos multímetros digitais.
      Ah! Não deixa de visitar o abobrinhasfilosoficas.com.br. Estou publicando minhas memórias (antes que virem vagas lembranças)
      Abraços eletrônicos, Alex (o sumido).

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