Se eu fizer um curso técnico de eletrônica aprendo a consertar “coisas”?

Esta é uma pergunta que sempre me fazem e em especial aqueles que estão interessados em ingressar no Clube Aprenda Eletrônica com Paulo Brites.

Muitos deles, são pessoas interessadas em aprender a consertar televisão e outros equipamentos eletrônicos. Outros são estudantes, hobistas e inventores.

A resposta para pergunta: – “ Se eu fizer um curso técnico de eletrônica aprendo a consertar “coisas”? ”pode ser SIM e NÃO e você deve estar achando que confundi mais do que esclareci.

Os mais antigos se lembrarão de um jargão do velho guerreiro Chacrinha que dizia “Não vim aqui para explicar, eu vim aqui para confundir”.

Que tal lhe perguntar, então: – “se você estudar medicina aprenderá a curar as pessoas doentes? ”

Em outras palavras, só as aulas da faculdade serão suficientes?

Parece-me que não, pois os candidatos a futuros “curadores de doenças ou de doentes”, tecnicamente chamados médicos, precisarão fazer “residência”, ou seja, precisarão da prática porque só a teoria, embora indispensável, não basta…

Precisarão conviver com os gemidos dos doentes e as bactérias dos hospitais, para começarem a entender como transformar a indispensável teoria das salas de aula em resultados práticos para quem tem pressa para ser “consertado”.

E mais complicado ainda será, caso o “candidato” à médico, pretenda ser cirurgião.

Afinal o futuro técnico em eletrônica “consertador de tv” também não terá que fazer uma espécie de “residência” que é o estágio obrigatório, talvez você esteja querendo perguntar.

Sim, certamente terá, mas a pergunta que fica é, onde?

No Brasil, praticamente, existem pouquíssimas empresas voltadas para reparação de equipamentos eletrônicos que estejam gabaritadas ou se interessem em oferecer estágio nesta área.

Então, o estudante do curso técnico, para poder obter seu certificado, aceita “qualquer coisa” que apareça mesmo que não seja aquilo que lhe interessa que é aprender a consertar “coisas eletrônicas”, dentre elas os televisores.

E se, por um lado, quase não existam locais para fazer estágio voltado para a reparação, menos ainda existem professores, com formação capaz de “ensinar como consertar”, em número suficiente para atender a todas as escolas técnicas do pais.

Precisaríamos de muitos profissionais-professores (como eu) e o que temos são professores-profissionais.

O que eu chamo de profissional-professor é aquele que, além do notório saber em sua área, possui todo arsenal didático-pedagógico para transferir ao aprendiz a sua experiência profissional. Em outras palavras, não é alguém que detém o conhecimento teórico como o professor-profissional, mas nunca colocou a “mão na massa”.

Não entenda isto como uma crítica destrutiva, e sim, é apenas uma realidade constatada.

Entre o saber fazer e o saber fazer o outro aprender (não gosto do termo ensinar) pode haver uma distância muito grande.

O que um curso técnico, se for de boa qualidade, melhor poderá oferecer, talvez seja a possibilidade de torná-lo um técnico projetista.

Entretanto, de técnico-projetista a técnico-reparador a caminhada é longa.

Costumo usar a seguinte metáfora: o projetista é o “assassino” enquanto o reparador é o “investigador” e, quase sempre, é mais fácil cometer o crime do que descobrir quem cometeu ou quem mandou cometer!

Reparou que grifei a última parte da frase acima? Percebeu a sutileza?

Muitas vezes, a peça queimada foi “quem cometeu o crime”, mas a coisa não para por aí, há que se descobrir a causa, ou seja, “quem mandou cometer o crime”.

Então, nunca irei aprender a consertar?

Novamente a resposta é SIM e NÃO, mas acrescento: – dependerá de você.

O primeiro passo, imprescindível, é obter uma formação teórica e conceitual a mais sólida possível.

Entretanto, quando digo “formação teórica e conceitual” não excluo a experimentação.

Faço minhas as palavras de Comenius, um holandês lá dos idos de 1592. Isso mesmo, 1592, não errei o ano. Aliás ele é considerado ainda hoje o “pai da pedagogia MODERNA”.

Sem querer transformar o texto em aula de pedagogia, coloco abaixo uma das ideias de Comenius que procuro usar seja nas aulas de eletrônica ou de matemática e física.

“A educação deveria começar pelos sentidos, pois a experiências sensoriais obtidas por meio dos objetos seriam internalizadas e, mas tarde, interpretadas pela razão”  

É assim que trabalho minhas aulas no Clube Aprenda Eletrônica com Paulo Brites.

Logo no início o aprendiz é convidado, ou melhor, convocado a pôr a mão massa, neste caso, os componentes e instrumentos de teste, e experimentar.

Não há como se ensinar a consertar seja lá o que for sem que o aprendiz tenha internalizado os princípios de funcionamento dos componentes e dos circuitos.

E para internalizar estes princípios precisa-se “aguçar os sentidos” imediatamente após ter sido apresentado aos conceitos.

Na medida em que você vai entendendo o papel de cada componente dentro do circuito além de como o próprio circuito em si funciona, você também começa a perceber a causa do mal funcionamento, ou melhor, o que popularmente chama-se de defeito.

Aqui no blog já escrevi vários artigos sobre reparação, não para “ensinar” a trocar peça, mas sim para orientar o iniciante como raciocinar logicamente fazendo o papel do detetive, porque no fundo é isto que um técnico reparador é, um investigador.

Estou reunindo estes artigos num pequeno e-book grátis que colocarei aqui no blog para ser baixado daqui a alguns dias.

Espero ter “esclarecido e não confundido”, como dizia o Chacrinha, mas não posso encerrar sem deixar de lembrar-lhe que, às vezes, o aprendizado é lento, e mais ainda neste ramo em que a cada minuto os equipamentos mudam de “cara”.

Na era da velocidade em que vivemos, pensar que começando agora, amanhã você já poderá pendurar uma plaquinha na sua porta anunciando “conSerta-se televisão LCD” é, no mínimo otimismo demais, a menos que você pretenda ser o que eu chamo de “técnico forumfeiro” que fica perguntando nos fóruns “qual peça trocar ou o que é aquele tubinho cheio de faixa coloridas”.

Se a sua intenção é essa, talvez minhas aulas do Clube Aprenda Eletrônica com Paulo Brites não sirvam para você. Até entendendo a sua pressa, mas defendo a ideia de que ser técnico e consertar um equipamento vai além de trocar peças e fazê-lo funcionar outra vez (sabe-se lá por quanto tempo).

Se quer aprender mesmo, “vem que eu te ensino como ser bem melhor, vou transformar seu rascunho em arte final” como diz a Paula Toller do Kid Abelha.

Vejo você no Clube (ou não, depende de você).

Paulo Brites

Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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