Não escolhi ser professor, a vida me escolheu

Hoje, dia em que se comemora, a virtude de ser professor eu resolvi escrever um pouco sobre minha própria história.

Não sou chegado a acreditar em “dom” nem em “coisas sobrenaturais” e, portanto, quando digo “a vida me escolheu” não vai aqui nenhuma ideia de “estava escrito nas estrelas”.

Meu interesse por eletricidade vem desde a infância e eu atribuo, em parte, ao ambiente em que fui criado. A foto ao lado que está no “sobre mim” no meu blog é de quando eu tinha dois anos (apenas).

O “ferro” a que se refere a “legenda” escrita por meu pai, era daqueles de passar roupa de antigamente, neste caso 1947.

Não vou me estender mais sobre este assunto que fica para quando eu escrever minha autobiografia, mas vale dizer que uma das minhas brincadeiras de criança (e de adulto) sempre rondaram em desmontar coisas e querer saber como elas funcionam. Acho que tenho alma de gato, sou curioso e não me contento com “é assim, porque é”!

Ao terminar o curso científico (hoje chamado ensino médio), em 1964, eu já tinha claro em minha mente que queria estudar engenharia eletrônica, pois nessa época eu já tinha “evoluído” dos ferros de passar para os rádios valvulados.

No Rio só existiam duas opções para este curso: PUC ou IME.

A primeira opção estava completamente descartada por razões óbvias. Falta de dinheiro.

Prestado o vestibular para o IME em janeiro de 65 eu não passei e hoje e tenho certeza que foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida, além de ter nascido míope e com pé chato. Fui dispensado da inutilidade de servir as forças armadas.

Embora eu tivesse passado um ano fazendo cursinho (COS, o concorrente mais barato do Bahiense) a prova era muito difícil. Nada de “uni duni tê”, se souber ler marque a letra D. Todas as questões eram discursivas.

Saí da prova pensando, e agora?

Não me sentia muito animado de voltar a fazer cursinho para tentar novo vestibular, foi quando um amigo da escola (Educandário Ruy Barbosa) me falou de um curso técnico de nível médio de eletrônica na Tijuca. Era um curso particular, portanto pago.

Fomos eu e me pai ver o curso (nesta época eu morava em Laranjeiras). O preço era um pouco “salgado”, mas o diretor disse para meu pai fazer uma “contraproposta” por escrito que o caso seria analisado “pela diretoria”.

Um jogo de cena para dar a bolsa de 50%, porque o “professor” Trindade, dono do curso, era um autodidata que queira que todas as pessoas pudessem estudar como ele não tinha podido.

A “diretoria aprovou”, o desconto foi concedido e em 1965 começava eu a mudar definitivamente o rumo da minha vida (para melhor).

Como eu já tinha completado o “científico” fiquei dispensado de várias disciplinas e só cursava, eletrotécnica, eletrônica e matemática, pois a direção considerava que a “matemática deles” era fundamental.

Embora não tivesse passado no vestibular do IME, aquelas aulinhas de matemática eram ridículas para mim e logo me destaquei.

A professora começou a me mandar resolver exercícios no quadro e explicá-los para turma, enquanto ela descansava um pouquinho.

Eu estava começando a minha carreira de professor sem saber.

Eu já tinha “dado aulas” para meus colegas do científico para ganhar um dinheirinho, portanto já tinha uma “certa prática”.

Fui para o segundo ano. A coisa começou a engrossar, o professor de matemática, meu inesquecível, Paulo Baptista de Oliveira, não brincava em serviço e eu que “me achava”, comecei um saudável “embate” com ele.

Um dia ele me disse mais ou menos assim, quer discutir comigo vai ler Princípios Fundamentais da Matemática de Bento de Jesus Caraça, livro que guardo até hoje.

Minha alma curiosa de gato correu a comprar o livro e devorá-lo. Uns dos melhores livros de matemática que já li até hoje.

No meio daquele ano a minha ex-professora do 1º ano se afastou porque estava no final de uma gravidez.

Paulo Baptista assumiu a turma dela aos trancos e barrancos e como eu tinha muitos tempos vagos virei assistente dele.

Ele me passava as listas de exercícios para eu estudar e resolver para os alunos do 1º ano. Ao mesmo tempo me recomendava leituras. Nunca esqueci de uma frase que ele me disse “se você vai ensinar a resolver equações do 1º grau, precisa saber resolver as do 2º grau também”.

A metáfora para mim era clara. O professor tem que ir além do que pretende ensinar e é isso que faço até hoje.

Fui para o 3º ano que passava a ser a noite e “virei professor” do 1º ano pela manhã com a assessoria do PBO.

Comecei a sugerir algumas mudanças, pois sempre “combati” o que eu chamo de matemática do x e y.

Existem dois tipos de pessoas que estudam matemática no mundo: as que são obrigadas a estudar e as que adoram matemática.

Para as que adoram matemática, x e y é o êxtase.

Para as que são “obrigadas” a estudar precisamos mostrar a elas que a matemática é tão fundamental para a vida como o ar que respiramos e água que bebemos.

Dentre as mudanças, comecei a tirar o “x e y” e introduzir nos exercícios as letrinhas usadas em nas aulas de eletrotécnica: v, i, r, t etc.

Nesta época eu pesquisava muitos livros de matemática americanos para cursos técnicos e percebia que era assim que eles faziam.

Comecei a “plagiá-los” com o aval do PBO.

Quem está no fogo é para se queimar e se eu estava “sendo empurrado a ser professor” precisar ler um pouco sobre didática e pedagogia. Comecei a devorar livros sobre o tema. Piaget, Vygotsky que eram, e continuando sendo, os clássicos. Tudo via bibliotecas (ainda não existia o Google).

Sem que ninguém me dissesse eu comecei a perceber que ensinar alguma coisa a alguém tem que ir muito além de saber bem aquilo que se pretende ensinar. Precisamos penetrar na alma humana. Comecei a ler sobre psicologia.

Findo o 3º ano e indo para o 4º, com muito tempo livre, eu já era “professor” da escola, assumindo várias turmas e tendo a ousadia de escrever meu próprio material para as aulas.

A ideia de fazer engenharia no IME tinha sido totalmente abandonada.

Eu não escolhi ser professor, a vida me escolheu e, às vezes, a vida é sabia em fazer suas escolhas. Comigo ela foi.

Como assim, “professor” sem diploma universitário?

Pois é, Van Gogh também nunca se formou em artes, nem Faraday nunca fez engenharia!

Mas eu percebia que aquela situação não iria perdurar pela vida toda e resolvi fazer vestibular de matemática na UFRJ em 72 ou 73 (não lembro bem).

Desta vez eu passei, porque eu queira passar.

Ir para a Ilha do Fundão naquela época, sem carro, era uma viagem interplanetária e eu dava 52 aulas por semana (isso mesmo).

Fui arrastando o curso no Fundão como podia e trabalhando como um louco ao mesmo tempo que começava a me desencantar com os donos de colégio e cursinhos sempre pagando mal e atrasando os pagamentos.

Em 76 resolvi chutar o balde e voltar às “origens”. Se eu era técnico em eletrônica com CREA porque não trabalhar como técnico? A vida, às vezes, é sábia.

No primeiro concurso que fiz para Petrobras fui reprovado no psicotécnico. Isso mesmo, acho que me consideram meio doido.

Depois descobri que no psicotécnico é que se faziam as maracutaias para colocar, talvez, um “amigo” no lugar de quem passou com uma classificação melhor.

Em seguida fiz concurso para Embratel e aí já sabia como responder as pegadinhas, ganhei e levei.

Fui para a Embratel e lá fiquei por quase 15 anos fazendo um trabalho que odiava e tive que abandonar o sonho de professor de matemática no 6º período.

Casado, com uma filha pequena, o jeito era deixar o sonho e viver a realidade.

Trabalhar na Embratel, embora não gostasse do tipo de serviço que eu fazia, teve suas vantagens, além de ganhar relativamente bem aprendi muito e fiz boas amizades.

Mas a vida já tinha me levado para a sala de aula e sempre que havia uma oportunidade lá estava eu dando uma aula em algum lugar.

Em 78, já na Embratel, descobri involuntariamente que escrever também era uma forma de ser professor e estreiei na Revista Antenna com meu primeiro artigo.

Escolhi um tema que misturava matemática com eletrônica e era mal explicado nos textos de eletrônica, talvez, por falta do olhar do matemático.

Como disse Steve Job, comecei a descobrir “como ligar os pontos” que é fundamental na vida e poucas pessoas percebem isso. Einstein, por exemplo, percebeu.

Outubro de 1992, hora de chutar o balde outras vez.

Por motivos que não vem ao caso aqui narrar, pedi para ser demitido da Embratel. Não gosto muito de engolir sapos e minha alma de gato não aceita certas imposições.

Aqui vou dar um salto para 2005 quando uma coisa nova surgiu.

Não ter concluído o curso universitário foi uma coisa que ficou engasgada na minha goela e me incomodava muito.

Por outro lado, eu não tinha mais tempo nem disposição para frequentar uma faculdade presencial, principalmente pública.

Foi quando eu descobri o CEDERJ que oferecia licenciatura em formato de EAD com diploma pela UFF.

Lembrando a frase celebre do general romano Júlio Cesar, Veni, vidi, vici , e como disse Martinho da Vila “passei no vestibular” e neste caso a faculdade não era particular.

Em 2008 eu me graduei em matemática e agora sim, poderia exercer de direito a segunda profissão, a de professor, que a vida já havia escolhida para mim, de fato.

Resolvi fazer concurso para ser professor de escola pública e descobrir se era tão ruim como diziam.

Em setembro de 2010, lá estava eu lecionando física (mas uma vez a vida aprontou comigo, me formei e matemática e fui dar aula de física) numa escola pública noturna e no ano seguinte passei a trabalhar com turmas de jovens e adultos.

Foi um dos momentos mais gratificantes da minha vida. Trabalhar com aquelas pessoas que buscavam a sala de aula na idade adulta, depois de um dia inteiro de trabalho me humanizou muito e passei a ver as pessoas humildes com outro olhar.

Descobri durante os oito anos que trabalhei com jovens e adultos que o que é ruim não são os alunos e sim o que os (des)governantes fazem com o povo humilde e sem voz.

Hoje, aposentado compulsoriamente, dedico boa parte do meu “tempo livre” a escrever no meu blog sobre eletrônica e afins, que também é uma forma de ensinar e talvez a mais difícil. Fazer através da palavra escrita, as pessoas entenderem assuntos, às vezes, bem árduos, seja lá o nível de escolaridade que possuam.

Sinto-me muito gratificado ao receber os comentários de agradecimento dos leitores.

A vida me escolheu ser professor e costumo dizer que existem três coisas na vida que, se escolhemos ou somos escolhidos a fazer, devemos fazer bem feito: ser mãe, ser pai e ser professor. Não temos chance de errar, seja por escolha voluntária ou não, se a vida nos levou por este caminho sigamo-lo com afinco, buscando a perfeição.

Um bom professor é que aquele que tem a percepção de estar sempre aberto a “a aprender o que ensina” como disse Cora Coralina.

Não se torne professor por falta de opção e sim por amor ao próximo. Muitas das mudanças do mundo, para o bem ou para o mal, poderão depender de uma frase sua dita em sala de aula ou até um gesto.

Até hoje encontro ex-alunos de mais de 40 anos atrás que me relembram de coisas que eu disse em sala e que eles não esqueceram até hoje.

Um professor, uma mãe e um pai, cada um a seu modo é um formador de opinião e, muitas vezes, nossos atos são mais fortes na formação de alguém que, nossas palavras.

O professor não pode jamais seguir aquela máxima “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” ele tem que fazer o que diz!

Feliz dia a todos aqueles que abraçam com fervor, dignidade e honestidade a principal e mais importante profissão do mundo: PROFESSOR e termino com as palavras da poetisa Violeta Parra “gracias a la vida que me há dado tanto” e que convido vocês a ouvir na voz de Mercedes Sosa.

Não escolhi ser professor, a vida me escolheu
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Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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Paulo Brites

Paulo Brites

Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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23 Comentários

  1. Leib roichman

    Paulo, creio que tenhamos sido colegas de classe, pois seu nome me é familiar e também estudei no ” sobrado ” no largo da segunda feira !

    • Paulo Brites

      Eu sou bom de guardar nomes principalmente “estranhos”, mas estou certo quanto ao seu. Eu fiquei lá de 65 a 75.

  2. milton neves da assunçao

    Viajei obrigado mestre .

    • Paulo Brites

      Que bom que viajou (e não gastou nada).

  3. José B. Percini

    Caro amigo Brites.Li com muito orgulho sua trajetória linda de professor.Posso lhe dizer que fui seu aluno de eletrônica e o considero como um dos melhores que já tive.Passei por problemas parecidos no meu curso de engenharia sendo casado e tendo que trabalhar ao mesmo tempo.Bons tempos no curso COS que também frequentei.Um grande abraço do seu amigo José Percini.

    • Paulo Brites

      Grande Percini, muito obrigado pelo seu depoimento.
      Um forte abraço e até sempre

  4. Dailson Gonçalves Paixão

    Senhor Paulo, ao ler a sua mini biografia, fiz uma viagem no tempo e no espaço quando criança e sonhava em ser professor. A vida foi muito cruel comigo de tal forma que hoje uso essa, digamos, tragédia; para ironizar o fato de não ter conseguido ser professor. E ironizo com a seguinte frase quando vejo o que os professores passam “E pensar que um dia eu quis ser professor. Essa afirmativa é verdadeira mas no fundo tenho uma, digamos, “invejinha” de quem é professor. Como disse, por razões que não vem o caso citar por aqui, meus rumos mudaram. E por paixão também acabei na eletrônica. Não sou formado em nenhuma escola técnica. Sou auto didata no assunto. O suficiente para ir vivendo. Conheci o senhor através do técnico Rodrigues de Curitiba que é outra pessoa que merece toda a minha admiração e respeito pois não mede esforços para passar o que sabe aos colegas. Confesso que o pouco que pude ler do senhor só aumentou a minha admiração para contigo. A maioria dos técnicos não gostam de passar para os colegas de profissão o que sabem. E por vários motivos além do egoismo. Com o senhor eu sentir a diferença de querer passar para o próximo, e com muito prazer, o que sabe. O brigado por você existir. Que Deus te ilumine e aos seus. Meus parabéns. Dailson Gonçalves Paixão – Montes Claros MG

    • Paulo Brites

      Caro Dailson, obrigado pela participação e as palavras de agradecimento. Primeiro, há muito descobri que único corrente nosso, seja na profissão ou na vida, somos nós mesmos. Descobri também que não vim ao mundo “a passeio” e como diz a canção “só posso agradecer a vida por me ter dado tanto” passando ao próximo minhas “descobertas”.
      Um abraço e até sempre.

  5. Dante Vanderlei Efrom

    Estimado professor Paulo Brites: a sua crônica “Não escolhi ser professor: a vida me ensinou” me emocionou. Acompanho os seus textos desde a época de Antenna-Eletrônica Popular, do saudoso Gilberto Affonso Penna, e é sempre com alegria que acompanho os seus artigos, que muito nos ensinam sobre eletrônica e sobre a vida profissional. Obrigado, mestre Paulo Brites.

    • Paulo Brites

      Obrigado Dante, pelo jeito você faz parte da velha guarda, da época que eu chamo de “eletrônica romântica” que eu tento manter viva e levar para a garotada digital.
      Abraços e até sempre

  6. Fernando José

    Parabéns para nós!!!! Ótimos comentários!

    • Paulo Brites

      Valeu Fernando Sem educação, não há solução

  7. Armindo Sobreira

    Parabéns professor, acompanho seus artigos desde os tempos de Antena e Eletronica Popular. Belíssima trajetória de vida.

    • Paulo Brites

      Forte abraço, obrigado pelo apoio.

  8. Parabéns, Prof. Brites. Faço parte da legião de seguidores do estilo Paulo Brites de ensino. Seus livros e demais publicações me ajudaram e continuam ajudando muitas pessoas. Felicidades. Até sempre.

    • Paulo Brites

      Gostei do “estilo Paulo Brites de ensino” tomara que outros o copiem.

  9. Jaime Moraes

    Parabéns, meu amigo e colega de profissão.
    Um grande abraço,

    • Paulo Brites

      Estamos juntos Abração

  10. Moacir de Jesus Góis

    Sempre leio o que escreves e chega até mim. E o felicito por tamanha capacidade de descomplicar os assuntos. Parabéns, as homenagens deste dia são deveras próprias a um Professor de verdade.

    • Paulo Brites

      Muito obrigado Moacir Abraços

  11. A sua experiência profissional e de vida fazem-no um professor excelente.
    O bom professor é aquele que sabe o que ensina e o que propor ao aluno. Desta forma, o resultado é muito satisfatório.

    Obrigado.

    • Paulo Brites

      Eu digo que existem dois tipos de professor: O professor profissional e o profissional professor. Eu me encaixo no segundo tipo.

    • Dailson Gonçalves Paixão

      É isso aí companheiro Dirceu!

Fico muito contente quando alguém coloca um comentário, é sinal que leu