Transformadores e transformadores

Se você achou estranhou o título em que a palavra transformadores aparece duas vezes observe bem e veja a diferença em “Transformadores e transformadores”.

Notou que a primeira está com letra maiúscula e a segunda com minúscula?

É exatamente isso que acontece na prática, você pode comprar um Transformador que vai funcionar de acordo com as especificações que o fabricante imprimiu no rótulo ou um transformador que vai pegar fogo dentro do equipamento.

Essa história aconteceu comigo quando estava a gravar uma aula sobre retificação em meia ponte para o meu Curso de Eletrônica Básica on line e pensei que valeria a pena compartilhar com os leitores.

A intenção era começar a aula demonstrando a defasagem da senóide entre o CT e cada extremo do secundário para explicar como funcionaria a retificação.

Mas, isso não vem ao caso aqui, fica para a aula do Curso de Eletrônica Básica.

Peguei um “transformador” de 12V+12V aleatoriamente nas minhas sucatas. Era novo e nem me lembro mais como veio parar por aqui.

Liguei o bichinho na rede de 127V pendurei as ponteiras de cada canal do osciloscópio no secundário como se vê na fig.1.

Fig. 1 – Analisando um trafo com osciloscópio

Olha só o que apareceu na tela do osciloscópio.

Fig.2 – Onda no Secundário de um transformador de má qualidade

É claro que eu não esperava ver aquelas senóides lindas que aparecem nas páginas dos livros, mas isso que se vê na fig.2 merecia uma “CPI do transformador”.

Esqueci o dito cujo ligado, por alguns minutos, enquanto revirava minhas sucatas à cata de um Transformador.

Achei um que aparentava ser “um cidadão de bem” mas, como diz o ditado “quem vê cara, não vê coração”.

Teria que passá-lo pelo teste do osciloscópio.

Como eu disse, o “transformador” tinha ficado ligado, sem carga, e quando fui pegá-lo para desligar quase queimei o dedo de tão quente que o “meliante” estava.

Recuperado do susto e da quase queimadura no dedo, coloquei as ponteiras do osciloscópio no outro Transformador que era de uma marca conhecida (não vou fazer propagada) e veja na fig.3 o que apareceu no secundário.

Fig.3 – Onda no secundário de um transformador de qualidade

Agora sim, tínhamos no secundário duas senóides defasadas de 180° muito próximas das que vemos nos livros o que parecia indicar que este era realmente um Transformador.

Faltava o teste da temperatura, ou seja, deixar o bichinho ligado por algum tempo, ainda sem carga, e ver se aquecia.

Depois de mais de uma hora ligado ainda estava morno. Até aqui tudo bem, faltava ver como se comportaria com carga.

Coloquei uma lâmpada “puxando” 1,6A num dos enrolamentos de 12V e observei que o aquecimento continuava normal para um Transformador especificado para 12V+12V/960mA, ou seja, aproximadamente 24VA.

Que lições podemos tirar deste caso?

A primeira lição e mais óbvia é que a qualidade dos componentes eletrônicos está cada vez pior.

Porém, eu acrescentaria mais uma.

A explicação mais plausível para o transformador esquentar e apresentar uma onda tão distorcida no secundário é a má qualidade do ferro utilizado na construção do núcleo. 

Daqui para frente vou testar os transformadores também com o osciloscópio além do voltímetro.

É assim que, de repente, um equipamento pega fogo e o noticiário, mal informado, diz que foi curto-circuito!

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Paulo Brites

Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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