O multímetro analógico ICEL-Manaus MA 70 é bom para testar transistores?

No dia 11 de março deste ano eu publiquei o artigo “ Qual o melhor multímetro analógico para testar transistores?” e no dia seguinte o leitor Robson postou o comentário que eu reproduzo abaixo.

O multímetro analógico ICEL-Manaus MA 70 é bom para testar transistores?

Homenageando o humorista Agildo Ribeiro, recentemente falecido eu diria “Posso esclarecer? ”

Esclarecerei!

Eu estava justamente esperando chegar um MA 70 às minhas mãos, pois eu não o conhecia e, portanto, não poderia responder ao leitor  de forma responsável.

Finalmente o ICEL MA-70A chegou, mas eu estava muito ocupado com a construção do meu site Clube Aprenda Eletrônica com Paulo Brites e não pude me dedicar ao assunto naquele momento, embora eu já tivesse algumas ideias sobre o que iria dizer.

Eu nunca costumo dar respostas tipo “sim ou não”, sempre levo o leitor ou o aluno a analisar a questão e ele mesmo tirar suas conclusões. É uma mistura de Sócrates com Sherlock Holmes!

Vou começar mudando a pergunta original “O mulímetro analógico ICEL-Manaus MA 70 é bom para testar transistores?” para outra.

O que se pretende “descobrir” quando vamos testar um transistor?

Eu já abordei esta questão no artigo que gerou a pergunta do Robson, mas parece que não ficou muito claro para ele e, possivelmente, para outros que “ficaram com vergonha de perguntar”.

Perguntem a vontade, perguntar não ofende e eu adoro quando surgem dúvidas na cabeça dos leitores. Sinal que estão lendo meus artigos.

Para responder a pergunta reformulada, talvez valha recorrer um pouco ao passado para entender como as coisas funcionam e a partir daí tirar conclusões.

Seção nostalgia

No tempo das válvulas, elas apresentavam basicamente dois tipos de defeito:

  • “queimavam”, isto é, o filamento abria.
  • ficavam “fracas”, ou seja, baixa emissão de cátodo.

Casos de “fugas” entre eletrodos, aconteciam, mas eram menos comuns.

O primeiro defeito citado, filamento aberto, já podia ser idenficado visualmente porque a válvula “não acendia”. A comprovação definitiva vinha com a medição da resistência do filamento na escala ôhmica de um analógico, que era o que se tinha na época.

Outras complicações, como baixa emissão ou fugas entre eletrodos, demandavam o testador de válvula.

Quem não possuia um, porque era carrísimo, recorria as lojas de material eletrônico que faziam o teste mediante o pagamento de uma pequena taxa que poderia ficar isenta caso o técnico comprasse a válvula naquela loja.

Como a variadade de válvulas era razoavelmente limitada o técnico podia ter seu próprio estoque para testar na base do troca troca.

E assim, eramos felizes e não sabíamos!

Os transistores invadiram nossa praia

Quando os transistores começaram a chegar por aqui foi um “Deus nos acuda”, porque ninguém sabia direito como aquela coisinha de três pernhinhas funcionava e muito menos como testá-los.

Testador de transistores GE

Lá nos “steites” começaram a surgir o testadores de transistores como podemos ver um modelo da GE na figura ao lado, mas isto estava fora do alcance do “pobre técnico pobre” rasileiro.

Não sei quem trouxe  um “método alternativo” para resolver o problema. Testar as junções do transistor usando a escala ôhmica do multímetro que, diga-se de passagem, era o único que existia na época.

Provavelmente alguém que leu a informação em algum manual de um fabricante, como este da RCA de 1966.

Manual de transistores RCA 1966

Aqui eu quero abrir um parenteses para dizer que foi através de publicações deste tipo que eu fui aprendendo muita coisa.

Não existia Google. Eu pedia pelo correio e embora tivesse um preço de capa eles mandavam de graça, sem nenhum custo (éramos felizes e não sabíamos!).

Trecho da página 106 do Manual de Transistores da RCA

Voltando ao manual da RCA, lá na página 106, que reproduzo ao lado, há uma breve menção ao método de avaliar um transistor com auxílio da escala ôhmica, frisando entretanto que serve como uma avaliação preliminar do estado do transistor.

O método se espalhou pelos técnicos que nem boato e todo mundo começou a usá-lo, talvez, (ou com ceerteza) sem saber exatamente o que estava fazendo e pelo visto continua sem saber até hoje.

Veio então, a regra definitiva baseada no “dizem que” o bom analógico para testar transistor tem que ter uma escala de resistência “alta” (x10K, por exemplo) como os Sanwa 320X com sua escala de 100Mohm, AF105 e outros “animais” deste tipo que estão em extinção junto com a arara azul!

E agora vamos chegar ao MA-70A da Icel

Este instrumento possui uma escala ôhmica x100k que pode medir resistências até 200Mohms, logo deve ser bom para medir transistores seguindo a regra do “dizem que”, correto?

E R R A D O !

Eu não estou dizendo que ele é um instrumento ruim. Não ponnham palavras na minha boca, por favor.

Aliás, em nenhum lugar do manual de instruções a ICEL menciona que o instrumento pode ser usado para testar transistores usando a escala ôhmica.

Há, isto sim, a opção para medir hfe que por sinal, eu comparei com a medida obtida no digital da ICEL MD-6199 e no meu primeiro digital, um Scope DVM 638 (de 1970) e todos mostraram praticamente o mesmo valor.

Então, fica a dica, dá pra medir hfe com o MA-70A.

Se você precisa medir resistências altas  este instrumento poder ser uma boa opção de compra, mas quem foi que disse que as junções PN de um transistores são resistências ôhmicas?

Na verdade ninguém disse nem deixou de dizer, essa é a questão.

Reparou que eu grifei a expressão resistência ôhmica?

Resistência ôhmica é aquela que obdece a Lei de Ohm, ou seja, quando a tensão aplicada variar a corrente variará linearmente o que, não é o caso da resistência de uma junção PN.

Resistores comuns, que usamos no dia a dia, têm resistência ôhmica.

Junção PN não apresenta resistência ôhmica e é exatamente aqui que o método tradicional pode falhar dependendo do analógico utilizado.

Voltando ao MA-70A da ICEL

Quando eu me deparei com este instrumento, logo desconfie que ele e todos os similares de outras marcas não é um “analógico clássico” e sim, o que eu chamaria de “analógico híbrido”.

Usando o método sherlokiano já haviam duas evidências imediatas para provar isso:

  • Um led aceso no painel quando passamos a chave seletora de OFF para qualquer função.
  • A função de auto desligamento após alguns minutos ligados.

Estas são características que não existem e nem precisam existir num analógico clássico, entretanto são importantes em equipamentos que debitam corrente da bateria mesmo quando não estão em uso como é o caso dos equipamentos digitais.

Curioso como eu sou, não resisti abrir o instrumento para ver o que tinha lá dentro. Minhas suspeitas se confirmaram, uma placa com vários CIs, o que nãe existe num analógico.

Vista interna do MA-70A da ICEL

Por outro, como já mencionei, temos uma opção para medir hfe que não exite em instumentos analógicos  “verdadeiros”, mas no MA-70A ela existe (esta poderia ser a evidência número 3).

Em outras palavras, o MA-70A é um instrumento digital com display “analógico”, ou seja, um instrumento híbrido.

Eu compraria um MA-70A?

Eis aqui novamente uma pergunta que eu não vou responder com um simples sim ou não.

Se eu estivesse chegando agora na eletrônica, não tivesse nenhum instrumento analógico e pouco dinheiro para gastar, eu reponderia sim.

É um instrumento com características gerais interessantes e pelo preço vale a pena, porque não se encontra uma analógico dos velhos tempos por menos de mil reais.

Mas, se a minha  intenção fosse meramente “testar” transistores usando a escala x100k, eu diria não, porque esta não é a proposta de nenhum instrumento analógico similar a este.

Lembre-se, testar transistor de verdade não é medir resistência da junção PN.

O que eu faria então?

Se eu estivesse querendo, compraria o MA-70A e usuria o método de testar fugas de transistores descrito no meu artigo “Medindo correntes de fugas em transistores bipolares” pois,  afinal o que se quer é medir correntes e não resistências seja lá de quantos milhões de ohms for.

Vale a pena ler também ler meu artigo “Correntes de fuga em transistores bipolares” para entender definitivamente este assunto.

E por que os instrumentos analógicos com bateria de 22,5V funcionam para medir fugas na escala de alta resistência?

Porque estes instrumentos quando estão nesta escala na verdade estão medindo corrente. Simples assim.

E tem mais, medem correntes muito baixas e para que funcionem precisam de uma fonte de tensão com um valor relativamente alto (22,5V + 1,5V) para conseguir medir resistências altas isto porque utilizam um microamperímetro com fundo de escala da ordem de 10 µA, enquanto o MA-70A, segundo o manual, utiliza um galvanômetro de 44µA. 

Aí esta a explicação para a lenda da regra “dizem que” mencionada lá atrás.

Esclareci?

Descanse em paz, Agildo!

O multímetro analógico ICEL-Manaus MA 70 é bom para testar transistores?
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Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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Paulo Brites

Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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4 Comentários

  1. Evandro Carlos

    Excelentes os três artigos que tratam do assunto. Se o objetivo é medir corrente de fuga em transistor, e salvo a pessoa que tenha dinheiro suficiente para um 320x ou AF105, eu aconselho montar o circuito descrito no artigo “medindo corrente de fuga em transistores bipolares” do professor Paulo Brites.É a melhor solução. Mas se o indivíduo é teimoso, tem paciência de monge (para esperar o correio), sorte (para não ser taxado pela receita) e está disposto a gastar uns R$400,00, procure pelo Sanwa CX506a. Não é eletrônico como o MA-70, tem sensibilidade de 50Kohms/V e galvanômetro de 15uA. Só não usa a bateria de 22,5V (que é caríssima e mais rara que político honesto). Em testes preliminares consegui pegar fuga em uns 2n3055 fajuto (só tem fajuto agora). E corre que o dólar disparou.
    Curiosidade: o Sanwa 305-ztr, contemporâneo do 320x e que também usa a bateria de 22,5v – improvisada com 14 baterias tipo botão LR44, que custam R$1,00 cada – também pega fuga na escala x10K, embora tenha sensibilidade de 20Kohms/V, bem menor do que o 320x.

    • Paulo Brites

      Ótima a sua contribuição para os leitores aqui do site trazendo o seu depoimento.
      Quando eu tiver um tempinho (coisa mais rara que político honesto rsrsrs) vou montar um testador de transistores a moda antiga como os Heatkit, por exemplo.
      Compra-se microamperímetro de 100 uA por 45,00 no ML O problema e que o correio se transformou em extorsão explicita e o custo de remessa fica, às vezes, mais caro que o produto. Monopólio estatal é isso.

      • Evandro Carlos

        Se for mesmo montar o testador sugiro fazer um artigo descrevendo a montagem. Abraços.

        • Paulo Brites

          Claro, deixa comigo Assim que eu me desvencilhar desse projeto do Clube penso nisso.

Fico muito contente quando alguém coloca um comentário, é sinal que leu