Criptografia básica ou “escondendo” suas senhas dos hackers

Resolvi escrever este post sobre criptografia básica porque julgo que é um assunto bastante pertinente e útil nestes tempos em que temos que usar senhas a todo momento e a criptografia tem tudo a ver com elas.

Por favor, não vá confundir criptografia com kryptonita que é uma invenção do mundo das histórias em quadrinhos do Super Homem.

Brincadeirinhas a parte com o jogo de palavras, sempre recomendo que de frente a uma palavra nova e desconhecida devemos começar estudando sua etimologia que podemos encontrar nos dicionários, pejorativamente, chamados de “pai dos burros”.

Eu prefiro dizer que ele é o “pai dos que querem aprender” e por isso, às vezes, levava-os para sala de aula para ajudar os meus alunos de EJA (Educação de Jovens e Adultos) a encontrar o significado de uma “palavra nova” que apareceria nas minhas aulas de Física.

Isso é “tentar” ensinar e que não deve ser confundido com “adestramento”.

Depois deste breve “desabafo” das minhas inquietudes com os métodos de Educação Escolar, tratarei, finalmente e de maneira breve, da etimologia da palavra CRIPTOGRAFIA.

Criptografia vem do grego kryptos “escondido” e de gráphein “escrita”.

Se você está pensando que criptografia é coisa apenas para cientistas vou lhe contar um segredinho.

Eu aprendi a “usar” criptografia lá pelos meus 12 ou 13 anos de idade e quem me ensinou foi meu pai que só tinha estudado as primeiras séries do Curso Primário dos idos de mil e novecentos e lá vai fumaça.

O livro o Mestre Ignorante de Jacques Rancière ajuda a explicar, a quem se interessar, o que eu quis dizer no parágrafo acima.

Voltando ao meu “mestre ignorante”, meu pai, ELE (maiúsculo mesmo) não chamava de “criptografia” e certamente nem conhecia esta palavra, mas sabia que podia “esconder” dos fregueses (ainda não eram “clientes) o “preço de custo” das mercadorias da loja do meu avô, onde ele trabalhava, embora eles aparecessem também na etiqueta, escrita a mão, colada nas mercadorias em exposição nas vitrines da loja.

Na etiqueta existia uma sequência de letras que representava o preço de custo e logo abaixo um número que era o preço de venda.

A cada letra correspondia um número, então era muito fácil saber o valor “escondido” do preço de custo desde que se soubesse a “correspondência biunívoca letra-número”, ou melhor, “letra-dígito”.

No sistema de numeração decimal bastam dez dígitos, de 0 a 9, para se escrever qualquer número.

O “sistema de criptografia” de meu avô usava uma palavra com dez letras. Todo o “segredo” estava escondido nesta “palavra-chave”.

Meu pai me revelou o “segredo” sob a condição que eu não poderia revelá-lo a ninguém. Era um verdadeiro “segredo de Estado”. Vejam que responsabilidade para um pré-adolescente.

Hoje, passados mais de 60 anos, meu avô e meu pai já faleceram, a Casa Luz (loja do meu avô) também não existe mais e posso “revelar ao mundo” a “chave criptográfica” dele.

A palavra-chave era PERNAMBUCO, sendo que a letra O, que representava o zero, era substituída por X para “disfarçar”.

Assim, se estivesse escrito na etiqueta “rn.xx” sabíamos, num piscar de olhos, que o custo era CR$ 32,00 (na época a moeda no Brasil era Cruzeiro).  Se o freguês pechinchasse dava para saber rapidamente até quanto poderia chegar o desconto.

Simples assim, sem “computador” e sem protocolo!

Uma lição para o resto da vida

Quando as senhas das contas bancárias e dos cartões de crédito começaram a fazer parte obrigatória de nossas vidas, creio que lá pela década de noventa, lembrei-me da “criptografia básica” dos preços da loja do meu avô.

É claro que não usei PERNAMBUCO como minha palavra-chave. Inventei a minha e bem estranha para dificultar que alguém a hackeasse. Andava com aquele conjunto de letras, aparentemente aleatórias, escritas no meu cartão de crédito sem nenhum medo.

A palavra-chave está na minha cabeça, mas por via das dúvidas, o chamado back up, está anotada também num caderninho em casa e sem nenhuma referência. O meu “segredo de Estado”.

Então, criptografia é só isso?

Não, caro leitor, não é só isso.

Não vá pensar que a criptografia dos bancos e tudo mais que envolve senhas é tão simples. Lembre-se que o título do post é “criptografia básica”.

A criptografia moderna envolver, para início de conversar, uma matemática “pesada” apoiada na teoria dos números e “otras cositas más” sobre as quais não tratarei aqui e nem teria competência para tal embora tenha estudado um pouquinho sobre ela na minha licenciatura em Matemática.

Criptografia de verdade é coisa para “gente grande”!

Mas, certamente, esta “lição de vida” do meu “mestre ignorante” poderá ser útil a quem estiver agora a ler este post.

Resta-me perguntar, por que não ensinam, nas escolas, coisas úteis para vida?

Fica aqui uma sugestão assistir em casa, nestes tempos de pandemia e com vacinas a conta gotas no Brasil, o filme Uma Mente Brilhante.

Paulo Brites

Técnico em eletrônica formado em 1968 pela Escola Técnica de Ciências Eletrônicas, professor de matemática formado pela UFF/CEDERJ com especialização em física. Atualmente aposentado atuando como técnico free lance em restauração de aparelhos antigos, escrevendo e-books e artigos técnicos e dando aula particular de matemática e física.

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6 Comentários

  1. Henrique Grizotti

    Me recordo do meu início no rádioamadorismo ainda na faixa do cidadão. Passávamos nossos números de telefone, casa etc, pelo famoso código “pernambuco”.

    • Paulo Brites

      Legal, essa eu não sabia

  2. E os alemaes na segunda guerra ww 2 ,tinha a maquina que os ingleses finalmente decifrarao a criptografia, a maquina de escrever nos submarinos Ubot .

    • Paulo Brites

      O filme que eu cito no final do post é sobre isso. A maquina chamava-se Enigma.
      Se vc clicar no link CRIPTOGRAFIA tem um resumo bem interessante sobre o assunto.

  3. Isaac Braz da Luz

    Paulo Brites grande mestre,tenho aprendido muito com você.

    • Paulo Brites

      Que bom Isaac, fico feliz com isso

      Abraços

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