Fusível Térmico e Termostato, não confunda alhos com bugalhos

Estava eu procurando na Internet informações sobre airfryer e que não fossem aqueles vídeos ensinando a desembrulhar pacote e, de repente, um deles me chamou a atenção.

O cidadão, que se dizia “técnico fulano de tal”, prometia ensinar a consertar qualquer airfryer em cinco minutos. Lembrou-me aqueles cartazes colados nos postes da cidade – “trago o seu amor em três dias”.

Resolvi gastar alguns minutos do meu precioso tempo e assistir o tal vídeo do curandeiro de airfryers.

Ele começa mostrando como verificar se a resistência não está em curto com auxílio de um poderoso multímetro Shing Ling.

Opa! “Resistência em Curto”?  Vivendo e aprendendo, ou melhor, desaprendendo!

Eu devia ter parado por aí, mas como sou bastante resistente a ataques de “burrice natural”, continuei perdendo meu tempo e logo descobri  que o pior ainda estava por vir.

Se a resistência “não estivesse em curto, no próximo passo ele mostrava como seguir os fios para verificar se o fusível térmico não estava “queimado” com o auxílio do Shing Lin na escala do “apito”.

Se não apitasse era sinal que o tal fusível estava “queimado” e precisaria ser trocado.

Agora vem a cereja do bolo. Como dá muito trabalho para trocar o tal fusível e iria estourar o tempo de cinco minutos, ele “ensinava” como usar aquela “técnica” de ladrões de automóvel, ou seja, fazer uma “ligação direta” e mandar o fusível  térmico de  proteção para o quinto dos infernos junto com a casa quando ela pegasse fogo.

Finalmente, talvez para salvar sua “reputação” ele alegava que, em caso de problemas, o disjuntor da casa desarmaria. Em outras palavras, terceirizou para o disjuntor a responsabilidade do seu serviço “porco” (com todo respeito aos suínos).

Depois de todo este lero-lero e puxão de orelhas nestes pseudo técnicos da “galera do Youtube”, é hora de destrinchar o funcionamento deste dois dispositivos de segurança, fusível térmico e termostato, que costumam ser encontrados em eletrodomésticos como cafeterias, grills, airfryers, secadores de cabelo entre outros.

Fusível Térmico

Vou começar falando da diferença entre  fusíveis térmicos e aqueles fusíveis de vidro que são encontrados nos equipamento eletrônicos.

Observe na fig.1 que, no fusível térmico, além das especificações de tensão e corrente, 250V 10A, neste exemplo, temos também um valor de temperatura que, no caso, é 104oC. É importante que ao substituí-lo, no caso de um reparo, este três valores sejam obedecidos: – tensão, corrente e temperatura.

                                                       Fig. 1 – Fusível Térmico

Vamos dar uma olhada por dentro de um fusível térmico para entender com ele funciona e porque, no caso de substituição, devemos usar um que tenha a mesma especificação de temperatura do original, além da tensão e da corrente

                                              Fig. 2 – Por dentro de um fusível térmico

Do lado esquerdo da fig.2 temos uma região que é preenchida com uma resina que pressiona uma mola que fecha o contato ente os terminais do fusível. Esta resina derrete quando a temperatura  no corpo do fusível excede o valor especificado e descomprime a mola que, por consequência,  abrirá o contato entre os dois terminais do fusível com vemos do lado direito.

Um fato que é preciso ser levado em conta é que depois que a resina derrete ela não retorna mais a condição inicial mesmo que a temperatura abaixe, ou seja, o fusível ficará definitivamente aberto e precisará, ou melhor, deverá ser trocado.

Dicas importantes para trocar um fusível térmico

O teste do fusível é o mesmo que se faz com os fusíveis de vidro, medimos a continuidade entre os seus terminais.

COM O EQUIPAMENTO DESLIGADO DA TOMADA

Na fig.3 vemos a instalação de instalação de um fusível térmico em uma cafeteira o que não difere de outros eletrodomésticos que o usam.

                                        Fig. 3 – Fusível térmico e termostato numa cafeteira]

Na fig.3 vemos no destaque o fusível térmico que estava protegido por um espaguete não inflamável.

Após a remoção do defeituoso, o novo deve ser colocado grimpado com os terminais que vemos na fig.4. Não se deve tentar soldá-los, primeiro porque corre-se o risco de inutilizá-lo uma vez que o calor do ferro de solda pode derreter a resina e também o  próprio calor da resistência com o equipamento em funcionamento poderá comprometer a solda no futuro.

                                                 Fig. 4 – Como instalar um fusível térmico

Repare na fig.3 que o fusível térmico está ligado em série com o termostato sobre o qual trataremos a seguir.

TERMOSTATO COM BIMETAL

Existem várias tipos de construção de termostatos e neste artigo tratarei apenas daqueles que  têm seu funcionamento baseado em um  material chamado bimetal.

Um bimetal é uma liga formada por dois metais que tem coeficientes de dilatação diferentes assim, ao ser aquecido se comporta como na ilustração da fig.5.

                                              Fig. 5 – Como funciona um bimetal

Encontramos uma lâmina de bimetal nos  starters das antigas lâmpadas fluorescente tubulares e nos controles de temperatura de ferros de passar roupa como se vê na fig.6.

                                 Fig. 6 – Starter de lâmpada fluorescente e controle de tempestuara de ferro de passar

É importante observar que os termostatos não atuam como fusíveis térmicos. A função deles é controlar a temperatura do equipamento. No caso do termostato  mostrado na cafeteira, por exemplo, ele fica ligando e desligando para manter a  temperatura constante por isso, ouve-se um estalimho de um contato abrindo e fechando quando a cafeteira fica ligada.

Por dentro de um termostato de bimetal

Na fig. 7 vemos um termostato desmontado para entender como ele funciona.

                                                  Fig.7 – Por dentro do termostato

O disco de bimetal não é plano, ele tem uma ligeira curvatura que mudará de lado quando a temperatura ultrapassar um determinado valor especificado. No caso do exemplo, 850C como está estampado na cobertura do termostato.

Este disco de bimetal mantem os contatos fechados pressionando o pino de plástico sobre um deles. Ao atingir 850C, neste caso, o disco muda a sua curvatura e libera a pressão sobre o pino de plástico abrindo os contatos que voltarão a fechar quando a temperatura voltar a abaixar.

Testando o termostato

O teste do termostato deve ser feito em duas etapas. Inicialmente verificamos, com auxílio da escala ôhmica de um multímetro, digital ou analógico, se temos zero Ohm entre os terminais.

Se a resistência estiver maior que zero Ohm significa que os pontos de contato estão danificados e o termostato deve ser trocado por outro com as mesma especificações de tensão, corrente e temperatura.

Entretanto, mesmo que a resistência medida seja zero ohm ainda precisamos realizar mais um teste importante: – verificar se os contato abrem quando o termostato é submetido a um aumento da temperatura.

Uma maneira simples e prática para fazer isso é colocar o ohmímetro fixado aos terminais e encostar um ferro de solda sobre a “tampinha” de alumínio e aguardar alguns minutos para ver se a resistência vai a infinito.

Se estiver usando uma estação de solda com controle de temperatura teremos uma indicação aproximada de quantos graus Celsius foram necessários para abrir os contatos.

Vale observar que este segundo teste é muito importante para se ter certeza que o termostato está funcionando corretamente.

Há casos em que os contatos se fundem numa ligação direta e não voltam a abrir quando a temperatura sobe.

Voltando ao início do post imagine que uma situação destas ocorra e o que  “técnico” baipassou  o fusível térmico. Como uma desgraça nunca vem sozinha, um Zé Faísca já havia trocado o disjuntor por um “mais forte” porque estava desarmando toda hora.

No noticiário da TV vão dizer – “a causa do incêndio foi um curto-circuito”!

E, em seguida, o time x derrotou o time y e saiu da zona de rebaixamento.

Vida que segue!

8 comentários em “Fusível Térmico e Termostato, não confunda alhos com bugalhos”

  1. Henrique Grizotti

    E eis que a minha cafeteira também para de funcionar do nada! Prontamente, não como técnico, mas como marido obediente (sabem como é), me prontifiquei a consertar tal valioso e indispensável equipamento da “patroa”! De cara o fusível térmico de 10A aberto e o termostato cheio de resíduos café resecado pelo calor. Limpei direitinho, sob supervisão acirrada.
    Porém, na hora do reparo, os modelos que eu possuía disponíveis não eram compatíveis com o original. Eu, marido obediente, onde a última palavra é sempre minha, “sim meu bem”, corri pra rua, procurando nas lojas da minha região. Poderia ter colocado um de 25A que eu tinha, mas alguma coisa dentro da cabeça, falou mais alto e não deixou. Procurei feito um louco e não encontrei nenhum no mesmo valor, até que um vendedor muito atencioso, diga-se de passagem, falou: ” Pode levar esse de 15A e colocar no lugar, funciona muito bem e não dará problema”. Agradeci e fui-me embora, sabendo que iria ouvir o resto da semana. Encomendei pela internet em uma loja que costumo comprar com regularidade e não tenho tido problemas. Depois de três dias chegou, troquei e “voilà”, tudos felizes e bem acordados. O ponto onde quero chegar? Se eu não tenho o devido conhecimento e sigo as instruções do vendedor solícito, poderia colocar fogo em meu apartamento por uma informação mal passada. Esses profissionais deveriam pensar antes de fechar uma venda e ganhar sua comissão, se vale a pena colocar em risco não só o patrimônio, mas também a vida de pessoas. Não sei se há uma lei para que isso não ocorra, mas antes de qualquer coisa, uma obrigação moral de cada um. Quem trabalha com material elétrico em geral deveria usar o bom senso nessas horas.
    Parabéns professor Brites, pelo assunto de grande relêvancia!
    Sinceramente,
    Henrique Grizotti.

    1. Caro Grizotti,
      Estamos vivendo na Era da Incompetência + Ganância generalizada em todos os setores. Um dia sim, outro também vemos no noticiário um carro, um ônibus que pegou fogo. Como assim? Panes inexplicáveis em aviões, portas abrindo com o “passáro” voando. Apartamentos pegando fogo por causa da carga de uma bateria de bicicleta elétrica e o repórter papagaio, que sabe tudo sobre eletricidade, dizendo que foi um curto circuito.
      Como diz meu filho, seu xará, “tá tudo melhorando pra pior”!
      Obrigado pelo comentário e um grande abraço.

  2. Alexandre José Nário

    Boa noite, professor Paulo. Gosto muito do seu trabalho (inclusive tenho alguns dos seus livros) e o companho há muito tempo. Vejo nos seus artigos uma certa ironia a respeito da qualidade dos produtos de origem chinesa. Seria bom você rever esse conceito, pois acredito que as coisas atualmente mudaram. Também gostaria de ver você nas
    lives do Newton C. Braga, seria o máximo. Abraços.

    1. Olá Alexandre, existe mais de um tipo de produto chinês. Uma grande parte do que é vendido pelo Aliexpress é de má qualidade e já mostrei isso algumas vezes. Muito são clones de um original feitos sem nenhuma critério e, como disse, antes já mostrei isso. Quando você compra um Minipa ou Icel, por exemplo, está comprando um chinês fabricado por encomenda e com supervisão. Se procurar bem encontrará um ou mais com a mesma “cara” por fora, mas, às vezes, diferente por dentro.
      Quanto as lives, não tenho tempo para participar.
      Abraços e obrigado pela participação.

  3. Excelente artigo, professor Brites!
    Como sempre um grande aprendizado!
    Seu bom humor é sensacional! Tem que ter cuidado, pois tem muito Zé da escova por aí Haha

    1. Meu caro, está cada dia mais difícil encontrar profissional por ai Encontra-se muitos profiCionais. Tá tudo dominado.
      Obrigado pela participação.
      Abraços e até sempre!

  4. Come sempre mostrando um conhecimento fruto de muitos anos de amor para a eletrônica. Parabéns Paulo!

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