Por que os novos televisores não usam mais tomada de  três pinos?

O chamado padrão de tomada brasileiro, hexagonal e com três pinos, se tornou obrigatório no Brasil em 2011.

Muitas foram as reclamações dos “especialistas”, que sabem tudo de coisa nenhuma, criticando a tomada e alguns até dizendo que “isso só existia no Brasil”.

Se os “especialistas em tomadas e focinho de porco” se dessem ao trabalho de fazer uma pesquisa rápida no Google, não falariam besteira e veriam que, dos 14 padrões de tomadas pelo mundo, apenas quatro ainda utilizam tomadas de dois pinos como podemos acompanhar na ilustração da figura 1.

Fig. 1 = Padrões de tomadas pelo mundo
Fig. 1- Padrões de tomadas pelo mundo

Depois de muita polêmica, finalmente os “fabricantes” brasileiros e usuários tiveram que “engolir a tomada de 3 pinos”, parafraseando Zagalo.

Finalmente o assunto parecia estar “pacificado”, como está no moda dizer, até que em 2019 o governo (?) do ex-presidente Bolsonaro resolveu mexer na norma e “flexibilizar” a obrigatoriedade da tomada de 3 pinos, provavelmente, após estudos baseados no focinho de porco que só tem 2 furos.

Para a indústria foi uma festa, iria economizar alguns centavos colocando um fio a menos no cabo de força e aumentar os lucros, agora só seria preciso arranjar uma justificativa “fundamentada” para garantir que, no caso dos televisores e outros eletrodomésticos, o terceiro pino não fazia falta nenhuma. E aí vai entrar a Classe II, sobre a qual falarei mais adiante.

Pensando bem, considerando que o terceiro pino é para aterramento e embora a LEI Nº 11.337, DE 26 DE JULHO DE 2006 diga em seu art. 1º –  As edificações cuja construção se inicie a partir da vigência desta Lei deverão obrigatoriamente possuir sistema de aterramento e instalações elétricas compatíveis com a utilização do condutor-terra de proteção, bem como tomadas com o terceiro contato correspondente, na prática a lei nunca foi cumprida à risca até hoje.

Abaixo o terceiro pino e o pulo do gato para acabar com ele

Para entender como a indústria de equipamentos eletrônicos, como televisores , por exemplo ,conseguiu eliminar o terceiro pino, precisamos entender o que são as Classes de Proteção I, II e III.

Inicialmente as Classes de Proteção foram de definidas como uma maneira de descrever como um equipamento deve proteger o usuário de choque elétrico.

Este conceito foi estendido às fontes de alimentação AC/DC adotando padrões internacionais como IEC 62268 e UL1310.

Vejamos o que especifica cada uma das Classes de Proteção.

CLASSE I – Proteção através de terminal PE (Protective Earth) conhecido como aterramento, fio verde ou verde e amarelo (nada a ver com Brasil. essa cores são universais).

 Todas as partes metálicas do equipamento devem ser conectadas ao PE, portanto deve usar tomada com três pinos (fase, neutro e PE = terra).

 CLASSE II – O “pulo do gato”. Duplo isolamento sem terminal de aterramento, ou seja, apenas tomada com  dois pinos (fase e neutro). A Classe II pode ser identificada pelo símbolo de um quadrado duplo como vemos na figura 2.

Fig. 2 - Símbolos das Classes de Proteção
Fig. 2 - Símbolos das Classes de Proteção

 Ops! Então se o equipamento, inclusive televisor, tiver um gabinete de plástico, isolando o usuário das partes metálicas internas, pode-se “burlar” a lei 11.337, afinal a maioria das construções continuam não tendo aterramento mesmo.  Simples assim!

CLASSE III – Equipamentos alimentados por tensões baixas e não conectados à rede elétrica.

Mas, e a Lei 11.337 que obriga que, desde junho de 2006, as edificações a partir daquela data devem possuir, obrigatoriamente, sistemas de aterramento?

Ora e as edificações anteriores ou mesmos as construídas a partir daquela data continuam sem sistema de aterramento?

Nestes casos basta enquadrar os equipamentos como Classe II e fica tudo certo.

Não confunda alhos com bugalhos – Classe II e Classe 2, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Antes de prosseguir, vale chamar atenção que existe também Classe 2 e se alguém está a pensar que a diferença entre elas é apenas uma questão de preferência em usar algarismo arábico (2) em lugar de romano (II) está completamente enganado.

Quando se usa algarismo romano (II) estamos a nos referir a entrada de alimentação para fonte que, neste caso, será com dois pinos apenas (fase, neutro e sem aterramento).

Por outro lado, se usamos algarismo arábico, Classe 2, neste caso estamos nos referindo ao limite máximo de potência que a fonte de alimentação pode entregar e não ao isolamento da fonte à rede elétrica.

O aterramento não serve apenas para proteção do usuário, serve também para proteger a rede elétrica e o equipamento

As fontes chaveadas produzem dois tipos de ruídos chamados  EMI – Interferência Eletromagnética e RFI – Interferência Por Radio Frequência os quais precisam e devem ser filtrados para evitar seus efeitos nefastos à rede elétrica e ao circuito eletrônico por ela alimentado.

Se quiser saber mais sobre estes filtros sugiro a leitura do meu artigo –  Cada macaco no seu galho: Capacitores na linha AC, publicado em 05/07/2017.

No momento o que nos interessa são os filtros de EMI cuja função é enviar para a Terra (Earth) ruídos indesejáveis, produzidos pela fonte) evitando, como já foi dito, que eles trafeguem na rede elétrica.

Na figura 3 temos o circuito de entrada de uma fonte chaveada onde damos destaque aos filtros EMI composto pelos capacitores, tipo Y, C194, C105, C106 e C107.

Neste exemplo a tomada tem três pinos sendo o central ligada ao Terra da rede elétrica como vemos no símbolo com três barrinhas.

Fig. 3 - Circuito de Entrada de uma fonte SMPS com tomada de três pinos
Fig.3 – Circuito de entrada de uma fonte chaveada com tomada de três pinos e destaque dos filtros EMI

Na figura 4 vemos outro circuito de entrada de fonte com filtro EMI realizado pelos capacitores, CY3, CY4, CY5 E CY6, porém utilizando uma tomada de dois pinos.

Se você é um bom observador e praticou o joguinho dos 7 erros na sua infância, deve ter notado que na figura 4 temos o resistor R1 ligando o neutro da rede elétrica ao terminal de aterramento representado por um símbolo do que foi usado na figura 3.

Fig. 4 -
Fig.4 – Circuito de entrada de uma fonte chaveada mostrando os filtro EMI e tomada com dois pinos

Ah! Então, basta colocar um resistor no neutro para ele “virar” Terra?

Isso é o que costuma ser chamado de “terra flutuante” (floating ground), mas para entender melhor isso é preciso relembrar que, em se tratando de rede elétrica, a Norma  NBR54140 define alguns sistemas de aterramento designados por TT, TN e IT. No caso particular do sistema TN, que é o que nos interessa aqui, ainda temos TN-C e TN-S

Não irei me aprofundar nisto aqui e, se tiver interesse, você poderá ler o meu artigo A eterna polêmica terra versus, publicado me 06/07.2015. Por enquanto vamos nos concentrar nos sistemas TN-S e TN-C.

  • No Sistema TN-S temos Neutro e Proteção (PE, fio verde ou verde e amarelo) com condutores separados em toda a instalação.

O Neutro é aterrado na entrada, mas cada equipamento é conectado a um PE separado. Neste caso, precisamos de tomada com três pinos.

  • No Sistema TN-C temos o Neutro e a Proteção (neste caso chama-se PEN) no mesmo condutor, ou seja, o PEN é aterrado na entrada e ligado simultaneamente ao Chassis Ground e ao Neutro. Tomada com dois pinos, fora do padrão mundial.

Earth Ground,  Chassis Ground e Floating Ground

Geralmente, nos referimos a “ground” como “terra”, quando estamos tratando de circuitos eletrônicos, mas há uma diferença sútil entre Earth Ground  e Chassis Ground.

Earth significa o planeta Terra, enquanto Ground  pode ser traduzido como chão e no caso de um circuito eletrônico o “chão” será algum tipo de blindagem metálica que o envolva e que chamaremos de Chassis Ground.

O planeta Terra (EARTH) é essencialmente um reservatório “infinito” de elétrons e por isso, é o melhor lugar para drenar o excesso de elétrons “indesejáveis” em um sistema eletrônico.

Quando o Chassis Ground não está ligado ao Earth Ground diz-se que é um terra flutuante (Floating Ground) portanto, trata-se de uma  instalação TN-C.

Resumo da ópera, na figura 4 o que temos é um terra flutuante que poderá funcionar como um Earth Ground, ou melhor, um PEN numa instalação for TN-C.

Um problema escondido na tomada de dois pinos

Mesmo que a instalação seja TN-C e, portanto o terceiro pino fique sem função, do ponto de vista elétrico, eu ainda sou um defensor ferrenho da tomada com três pinos, padrão brasileiro, e já vou explicar  por quê.

Se não temos o terceiro pino nunca se sabe qual o pino da tomada que vem do equipamento, no caso o televisor, corresponde a fase ou a neutro, logo temos 50% de chance de ligar corretamente, ou seja, fase na fase e neutro no neutro do pino da tomada da tomada que vem do televisor à tomada da parede e outros 50%  de ligar invertido, e aí do terra flutuante, em vez de ser ligado ao PEN, ser ligado à fase. Na melhor das hipóteses, perde-se a eficiência do filtro EMI.

Numa instalação com diversos equipamentos esse troca-troca pode acabar dando “ruim” em algum momento e aí, era uma vez um aparelho queimado “do nada”.

É óbvio que estou supondo a instalação das tomada foi feita corretamente, como vemos na fig.5, e não pelos “eletricistas” Zé Faísca, aqueles que chamam fase de positivo e neutro de negativo!

Caso a instalação seja no sistema TN-C, ainda assim, recomendo fortemente a tomada padrão brasileiro com três pinos,  deixando o terceiro pino sem ligação, poque servirá de guia para se ligar, sempre, fase na fase e neutro no neutro.

                          NUNCA ligar o pino do neutro com o de aterramento na tomada

Fig. 5 - Ligação Correta de uma tomada com três pinos padrão braieliro
Fig. 5 – Ligação correta de uma tomada com três pinos do padrão brasileiro.

Um erro, não justifica outro.

Todos os equipamentos, mesmo sendo Classe II, deveriam vir de fábrica com a tomada de três pinos do padrão brasileiro obedecendo a Lei 11.337.

Alegar que, “tanto faz”, ter dois ou três pinos na tomadas dos televisores  porque a maioria das instalações elétricas no Brasil são malfeitas é querer justificar um erro com outro erro.

O terceiro pino da tomada é como cinto de segurança no automóvel ou a cadeirinha de bebe, só terá utilidade quando for preciso!

Observação – Este artigo NÃO foi escrito por “Inteligência Artificial”.

2 comentários em “Por que os novos televisores não usam mais tomada de  três pinos?”

  1. Henrique Grizotti

    Tanto estudo, tantos acidentes e a coisa só piora. Nosso sistema de tomadas de 3 pinos é um dos mais seguros do mundo, quando feito de forma correta e responsável. Aí vem um ou dois, querendo agradar os empresarios, que não são nada gananciosos, e resolvem tirar o pobre coitado do pino terra!
    A população que se cuide!

    Outra afronta ao povo brasileiro foi a retirada dos esquemas eletrônicos dos aparelhos, extinguindo a cultura da reparação. Me lembro, ainda criança, que os manuais continham o diagrama eletrônico do aparelho. Ainda tenho alguns da década de 70 e 80. Passaram a nos obrigar a buscar a assistência técnica, que cobravam muito além do que foi reparado. Eram poucos os que cobravam o valor justo!

    Desculpa o desabafo professor!
    Saudações,

    Henrique Grizotti.

    1. Olá Henrique, faço coro as suas palavras.
      O pior é que, cada vez mais, os “técnicos” das autorizadas, ou seria AUTORISADA?, só sabem trocar placa.
      Como diz o meu filho – está tudo melohrando pra pior!

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