Fio terra para leigos

Capa_ ELETRICIDADE HotMarte com preço Compre agoraO “fio terra” é um tema sobre o qual se ouve bastante “opiniões” entre os leigos e até mesmo entre os pseudo eletricistas ou emendadores de fio.

Como o próprio título do post indica não é minha intenção fazer um tratamento extremamente teórico o que não significa que irei passar por cima de pontos fundamentais.

No passado não se dava muita atenção ao sistema de aterramento na rede elétrica, popularmente conhecido como “fio terra”, haja visto que todos ou quase todos os prédios antigos não dispõem deste importantíssimo item de segurança não só para os modernos equipamentos eletrônicos, mas principalmente para os humanos que os manuseiam.

Pode-se dizer que o aterramento está para a eletricidade assim como o cinto de segurança está para o motorista ou o capacete para o motociclista: você pode deixar de usar, mas …

Felizmente esta realidade começou a mudar graças a Lei Federal nº 11.337 de

26/07/2006 que entrou em vigência a partir de dezembro de 2007 e estipulou em seu Art.1º que:

“As edificações cuja construção se inicie a partir da vigência desta Lei deverão obrigatoriamente possuir sistema de aterramento e instalações elétricas compatíveis com a utilização do condutor-terra de proteção, bem como tomadas com terceiro contato correspondente.”

Antes de prosseguir é bom que se esclareçam duas questões que costumam ser confundidas por muita gente:

a)    a diferença entre neutro e terra

b)    chamar neutro e/ou terra de negativo.

Em primeiro lugar é importante que fique bem claro que em “corrente” alternada não se define um terminal como positivo e outro como negativo uma vez que os terminais alternam de polaridade a cada meio ciclo.

O que os mal informados chamam de negativo é o terminal que não dá choque e que na verdade é o neutro. Mas adiante veremos por que ele não dá choque.

Passemos agora a entender a diferença entre “terra” e neutro e nada melhor para isso que recorrermos às definições.

NEUTRO:  CONDUTOR FORNECIDO PELA CONCESSIONÁRIA (JUNTO COM A(S) FASE(S) PARA O RETORNO DA CORRENTE ELÉTRICA.

 TERRA: HASTE METÁLICA LIGADA A TERRA (pode ser um “buraco no chão”, mesmo) NA ENTRADA DE ALIMENTAÇÃO E QUE NÃO DEVE APRESENTAR CORRENTE CIRCULANTE.

Resumindo no neutro passa corrente enquanto no ‘terra’ não.

E qual o objetivo do fio terra também tecnicamente designado por PE (proteção elétrica)?

O primeiro objetivo do aterramento é (ou deveria ser) proteger as pessoas e o segundo é proteger os equipamentos.

Em primeiro lugar vamos entender como o aterramento protege as pessoas.

Quando eu digo “proteger” estou me referindo a evitar que se leve choque ao tocar na carcaça metálica de um equipamento.

Talvez valha a pena abrir um parêntese aqui para explicar esta questão do choque elétrico e também falar sobre um tópico que ficou pendente lá trás sobre porque o neutro não dá choque.

Para sentirmos choque precisamos tocar simultaneamente em dois pontos onde haja uma diferença de potencial elétrico, mais comumente chamada de tensão ou voltagem para fazer circular uma determinada corrente elétrica em nosso corpo.

Muita gente acha surpreendente que os pássaros pousem nos fios de distribuição de energia espalhados pela cidade e não morram eletrocutados.

O motivo é óbvio. Eles não colocam as patinhas em dois fios ao mesmo tempo (não porque tenham estudado física, mas porque a outra patinha não chega lá!) e aí não há diferença de potencial entre uma patinha e a outra (ainda bem).

Antes de prossegui vou deixar uma pergunta no ar e convido você a fazer um comentário para que possamos estabelecer um debate sobre o assunto: – o que é que produz o choque: a tensão ou a corrente? Pense nisso.

Como a eletricidade chega as nossas casas?

Na entrada de nossas casas recebemos dois ou mais fios fornecidos pela concessionária de energia elétrica.

Tratemos por enquanto do fornecimento com dois fios apenas em que um é chamado fase (ou vivo) e o outro chamado neutro (que jamais deverá ser chamado de negativo ou de terra).

Por uma “manobra” que não cabe explicar aqui a concessionária faz com que a diferença de potencial entre o fio neutro e a Terra (planeta Terra) seja igual a zero volt. Portanto, se tocarmos no fio neutro não levaremos choque uma vez que não há diferença de potencial entre o neutro e nós que estamos em contato com a Terra e portanto não irá circular nenhuma corrente elétrica pelo nosso corpo.

E por que antigamente não se dava muita importância ao aterramento (pelo menos no Brasil) e hoje se dá?

Ocorre que os equipamentos eletrônicos modernos são muito sensíveis a eletricidade estática, daí a necessidade de se descarregar para a Terra está eletricidade “invisível” que pode prejudicar e até danificar os componentes eletrônicos dos equipamentos.

Ah! Então quer dizer que as pessoas são menos importantes que os equipamentos por isso, antigamente o fio terra não era necessário?

Deixo por sua conta tirar as conclusões, o fato é que ainda bem que para salvar os equipamentos (e por tabela as pessoas) o aterramento se tornou obrigatório até nas instalações residenciais.

E onde conseguir “esse” terra? Você não está pensando em enfiar um pedaço de fio num vaso de planta, não é mesmo?

Devo adiantar que não sou um especialista no assunto até porque o tópico aterramento é uma especialização da engenharia elétrica. Vou me ater aqui a considerações de ordem prática enfatizando, principalmente, o que não se deve fazer.

O aterramento deve ser obtido na entrada de distribuição de energia da residência através de uma haste metálica introduzida na terra. Quanto a dimensão desta haste sugiro que você consulte a literatura especializada ou as normas da concessionária. Vale ressaltar também que em grandes consumidores os sistemas de aterramento são mais complexos e devem ser realizados por empresas com profissionais especializados.

E de onde vem o neutro?

 Diferentemente do “terra”, que de responsabilidade do consumidor,  o neutro é fornecido pela concessionária de energia elétrica.

A forma mais comum de fornecimento de energia é conhecida como monofásica e como o próprio nome indica e composta de uma fase.

Neste caso a concessionária entrega dois fios na caixa de entrada onde está instalado o “relógio de luz” sendo que um é a fase e o outro o neutro; o terra fica por sua conta e deverá ser instalado conforme já foi mencionado acima.

Se a rede for bifásica você receberá três fios, sendo duas fases e um neutro.

A tensão entre as fases será 220 V e entre cada fase e 127 V entre cada fase e o neutro.

A tensão medida entre neutro e terra deveria ser igual a zero volt. Na prática encontraremos um valor maior que zero, mas se for até 10 V está aceitável.

Erros comuns

 As tomadas brasileiras atuais têm três pinos, sendo que o pino central corresponde ao aterramento tecnicamente denominado PE ou PEN.

Este terceiro pino que é novidade por aqui já existia nos equipamentos importados cujas tomadas já tinham este pino para aterramento.

E o que nós brasileiros fazíamos?  Cortávamos este “maldito” pino que “não devia servir pra nada mesmo” já que o aparelho funcionava sem ele.

Havia até no mercado uma tomada adaptadora do tipo entra três sai dois e que evitava ter que cortar o pino para não perder a garantia.

Os mais “cautelosos” não cortavam o terceiro pino e faziam pior ainda, ligavam o neutro ao terminal de terra lá na tomada!

Pelo Amor de Deus, não façam isso. Jamais liguem o neutro ao terra.

 Já que é pra fazer errado cortem o terceiro pino que é “menos pior”.

Lembrem-se sempre da regra básica: – neutro é neutro e terra é terra.  Neutro não funciona como terra.

Por enquanto é só.

Ah! Já ia me esquecendo de uma coisa importante. A NBR 5410, norma da ABNT que estabelece os critérios para uma instalação elétrica correta, exige que seu use fio da cor azul claro para o neutro e verde ou verde e amarelo para o aterramento.  Respeitar esta norma com certeza vai ajudar bastante.

Se você gostou faça um comentário. Se não gostou também.

Se quiser sugerir um tema para abordamos no site sinta-se à vontade.

Até sempre.

Proteção e aterramento clique aqui

Técnico em Eletrônica. Professor de Eletrônica, Matemática e Física. Atualmente trabalhando como Técnico em Eletrônica na Fundação CECIERJ e como professor de matemática e física da SEEDUC.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

  1. excelente e esclarecedor – parabéns! outra: quando cursei eletrônica, o que se dizia era “não existe aterramento obrigatório no Brasil” e daí as tomadas “dois pinos” – parece q lançaram a regra, mas quem garante? quem fiscaliza? e… se há punição para quem negligencia isso, afinal o aterramento é bastante técnico e custoso para uma obra combater, digamos, tempestades com descargas elétricas. o que diz?

    • Caro “Poeta Xandu”
      Obrigado pela participação com seu comentário.
      O Brasil é o país das mentirinhas e tranca na porta depois da casa arrombada.
      Outra questão é a obrigatóriedade do uso do DR. Será que nos “apês” do “minha casa, minha vida” tem?
      Aterramento? Bota um potinho com terra no quintal que resolve !!!!!
      Bem, eu sou brasileiro e n]ao desisto nunca. Vou continuar escrevendo.
      Abraços

  2. Parabéns pelo artigo, amigo. Eu estou montando uma rede estruturada em uma obra onde o engenheiro elétricou mandou os eletricistas usarem o neutro da compania como terra e eles fizeram um jampeamento no quadro de distribuição que fez com que o neutro e o terra fossem o mesmo fio. Eu nunca tinha visto essa bizarrice e pedi para os eletricistas fizessem um aterramento a parte com 4 hastes cobreadas de 4 metros e puxassem o fio terra até o quadro de distribuição da sala do rack e colocasse esse terra em todas as tomadas dessa sala e desligassem o terra bizarro que o engenheiro eletrico mandou fazer. Resumo: a sala do CPD onde fica o rack com os servidores, switch etc, está com o aterramento feito pelas hastes que ficou muito bom, pois ligando uma lampada incandecente de 60w no fade e no terra ela acende bem forte e medindo o multimetro entre o neutro e o terra a tensão dada é de 0,5v, não chega nem a 1v. O meu receio disso tudo é que devido ao resto do predio estar usando o neutro como terra e só o CPD ter um aterramento de verdade, receio que haja alguma diferença de potencial entre o neutro usado como terra e o meu aterramento e que os cabos de rede que estarão ligados aos computadores do resto do prédio sirvam para transmitir alguma carga elétrica até o CPD e queime as portas do switch. Você sabe me dizer se esse risco existe ? Obrigado!

  3. Muito esclarecedor e didático seu texto, Paulo. Obrigado pela iniciativa em compartilhar com os menos informados questões técnicas tão úteis para nossa proteção e comodidade. Paulo, tenho uma dúvida. Liguei equivocadamente um o terra de um equipamento à fase da tomada e o equipamento queimou. Embora tenha sido óbvio meu erro, me questiono se era isso de fato que deveria ocorrer, já que o terra é conectado à carcaça do equipamento e não aos componentes que o faz funcionar (???). Tais componente não costumam ser isolados da carcaça? Obrigado,
    Alan

    • Olá Alan
      obrigado por sua partipação
      Você diz que ligou o terra à fase, ou seja, o terceiro pino da tomada, é isso?
      Seria preciso saber que equipamento é ver que tipo de configuração fizeram.
      Mande mais detealhes para contato@pauloberites.com.br pra ver seu descubro.
      Abraços

  4. Minha dúvida é a seguinte: o neutro é aterrado lá perto do ramal de ligação. E o terra obviamente também está ligado à terra. Qual seria a diferença entre eles então? Eu sei que os dois não são a mesma coisa, mas como os dois tem o potencial da terra, eu não consigo entender direito qual seria a diferença entre eles, você poderia esclarecer essa dúvida por favor?
    Gostei muito dos seus textos, parabéns pelo site!
    Obrigado desde já

    • Caro Edson
      Obrigado por participar do site com seu comentário
      Esta questão de terra e nutro realmente, a princípio, soa um pouco confusa.
      Em linha gerais pode-se dize o seguinte: todo circuito elétrico precisa, no mínimo, dois “caminhos” para os elétrons circularem, digamos dois polos como se diz em DC.
      Em AC chama-se fase, uma “viva” e outra neutra que a concessionária pode ligar a terra, mas devemos fazer um terra separado par ligar a carcaça dos equipamentos.
      Pleo Neutro (que pode ou não estar aterrado) circula corrente, mas pelo terra não.
      O assunto é um pouco mais complexo do que escrevi aqui.
      Foi uma boa pergunta. Vou preparar um post detalhado sobre o tema.
      Abraços
      Até sempre
      Paulo Brites

  5. Olá mestre.

    Em uma parte do texto você diz o seguinte:

    “A tensão entre as fases será 220 V e entre cada fase e 127 V entre cada fase e o neutro.”

    Vale lembrar que em algumas cidades como Nova Friburgo e Brasília entre outras, a tensão de fase(fase-neutro) é 220 v e a tensão de linha (fase-fase) é de 380 v.

    • Valeu Leonardo pela observação.

      Isso mostra que tem gente lendo com atenção.

      Vou fazer um “ajuste” no texto para esclarecer isso.

      Um abraço

  6. Gostei muito da matéria pois,é muito bom aumentar nossos conhecimentos.

    Paulo seja bem vindo!